Córrego Pirajussara alaga ruas de Taboão da Serra. 2016 ©Daniel Foggiato

RAPIDINHAS

Alguém ainda aguenta as Águas de Março?

By Daniel Foggiato

February 25, 2016

Calma lá, gente. Não estou falando sobre o clássico tema da bossa nova, composto pelo maestro Tom Jobim e imortalizado na gravação de 1974, com a interpretação feita pelo dueto do próprio Tom com a grandiosa Elis Regina. Estou falando é da chuva que assola a cidade de São Paulo e causa muitas enchentes. Ainda aguentaremos mais chuva até o final do verão?

Desde o final de dezembro, temos visto as inúmeras enchentes que acontecem em toda a capital e na região metropolitana da cidade. O cenário é usual: depois das tempestades, vemos as ruas completamente alagadas, carros arrastados pela correnteza, árvores caídas, casas invadidas pela água, famílias que perdem parte de seus pertences, pessoas que chegam a perder a vida, pois não conseguiram escapar da fúria da água.

Comerciante tem seu estabelecimento alagado, em Taboão da Serra. ©Daniel Foggiato

A situação que se estabelece faz jus ao conhecido ditado do cobertor curto. Chove bastante, é bom para as represas – estamos vendo que só agora a crise hídrica começa a se atenuar, com o sistema cantareira finalmente deixando o volume morto, graças ao alto índice de chuvas – mas acontecem as enchentes  que afetam a cidade e prejudicam milhares de pessoas; ou chove pouco, a cidade não tem problemas de enchentes, mas os reservatórios se esvaziam e falta água para a população. A questão é: por que será que a cidade não está preparada para aguentar um alto volume de chuva nessa época?

Resposta muito simples e dolorida: pois a cidade foi construída em cima de um enorme conjunto de rios. Pois é, existem mais de 300 rios na grande São Paulo. Não os vemos porque eles estão, em sua grande maioria, tamponados e canalizados. Provavelmente você que está lendo esse texto agora, em casa ou no trabalho, está em cima ou muito próximo de um rio. Entretanto, só nos lembramos ou notamos eles quando chove ou quando sentimos o mau cheiro.

História

Nossa metrópole nasceu, como sabemos, ali no Pateo do Colégio. Os jesuítas construíram a Vila de São Paulo de Piratininga numa colina entre os rios Anhagabaú e Piratininga – este último depois veio a ser chamado pelo seu nome atual, rio Tamanduateí, por causa do grande número de tamanduás-bandeiras  em sua margem. A partir de 1930, com a forte industrialização e o crescimento populacional da capital paulista, os rios passaram, infelizmente, a ser vistos como empecilhos para o progresso. A solução foi cobri-los com avenidas, prédios e fábricas. Esse pensamento de desprezo e marginalização dos rios foi crescendo cada vez mais e, além de enterrá-los debaixo das vias da cidade, as pessoas passaram também a sujá-los, jogando todo o tipo de lixo e detritos em seus leitos. Rio virou sinônimo de esgoto. Alguns habitantes de São Paulo, que aproveitavam os rios para lazer e até para beber e usar a água limpa para a casa, tiveram de aceitar o desaparecimento deles.

Rio Tamanduateí, que passa na Av. do Estado, recebe toneladas de lixo e esgoto. ©Daniel Foggiato

Hoje em dia, o poder público tem uma relação bipolar com os rios: gasta milhões, bilhões para tentar a sua despoluição, mas, ao mesmo tempo, permite que milhares de toneladas de esgoto sejam jogadas neles. Uma peça tragicômica. Já a população sofre com essa herança de descaso e de maus tratos com os rios. A verdade é que as enchentes acontecem exatamente onde têm de acontecer, e simplesmente porque há no local um rio embaixo do asfalto. É comum vermos a Avenida Ricardo Jafet, na zona sul, inundada pelo memorável córrego Ipiranga. E o centro, porque alaga? Ora, porque existem os rios Anhagabaú, Itororó e Saracura que passam por baixo do Vale de mesmo nome, da 23 de Maio e da 9 de Julho, respectivamente. Na zona oeste também, a Avenida Eliseu de Almeida e a Avenida Pirajussara se cobrem com as águas dos córregos Póa e Pirajussara, que causam sérios estragos aos bairros do Butantã, Campo Limpo e o município de Taboão da Serra, na grande SP. Ledo engano pensar que tamponar um rio seria bom para a cidade.

Atualmente, a consciência das pessoas está mudando um pouco. Alguns grupos se uniram para tentar pensar e difundir uma outra relação  entre os moradores e os rios da cidade. Para quem se interessou, vale à pena visitar a página, no Facebook, dos projetos Rios e Ruas e Cidade Azul. Eles explicam muito bem como o processo de urbanização da nossa metrópole prejudicou os rios. Também fazem um mapeamento de muitos desses rios em São Paulo, além de trazer depoimentos de moradores antigos que conheceram os rios quando eles ainda existiam a céu aberto. O mais legal são as expedições que eles fazem para encontrar as nascentes, como essa na foto abaixo, no bairro do Bixiga. O raciocínio é bem lógico: se continuarmos ignorando e maltratando nossos rios, as águas de março, (de fevereiro, janeiro e dezembro) continuarão a provocar as catastróficas enchentes que arruínam a vida de muitos cidadão de são Paulo.

Nascente do Rio Saracura, na esquina da rua Una com a rua Almirante Marques Leão, na Bela Vista. 2016. ©Daniel Foggiato

Seguem abaixo alguns links dos projetos:

http://veja.abril.com.br/multimidia/infograficos/rios-de-sao-paulo

https://vimeo.com/141494759