Série Avenida Paulista: a casa e a história dos Schahin

Série Avenida Paulista: a casa e a história dos Schahin

Nesta semana vamos apresentar na Série Avenida Paulista uma casa que é parte da segunda geração de construções da avenida, muitas delas pertencentes a famílias sírio-libanesas. Hoje contamos a história da casa e da família Schahin.

Para contar essa história contamos com a especial contribuição de João Farah, Ivete Farah Maldaun e Arthur Jafet, quais agradecemos a gentileza de compartilhar parte da história familiar.

A casa da família Schahin, foi comprada em 1950, do antigo proprietário, Thomas Muir (a história dele já foi publicada na Série Avenida Paulista, e pode ser lida neste link). Durante o período em que moraram na casa, os Schahin mantiveram o projeto original, sem modificação.

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Entrada da casa que dava acesso ao jardim de inverno, voltado à Avenida Paulista. Nos degraus está sentado o Sr. Michel Schahin.

O proprietário foi Michel Schahin, sírio que, quando veio para o Brasil, foi mascate por todo o país, até se tornar um grande comerciante e atacadista da loja Taufic Schahin e Irmãos.

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Michel Schahin em um dos ambientes da casa.

Sobre a família, João nos conta todos os acontecimentos:

Meus avós maternos, Salim Schahin e Najla Semin Schahin casaram-se na metade dos anos 1890, na cidade de Homs. Tiveram os seguintes filhos: Taufic, Emília, que faleceu com 4 anos, Michel, Jorge, Emília, minha mãe, que nasceu após o falecimento da primeira Emília, levando, portanto, o nome de sua irmã, Linda, Abdo, Cairalla e Victória.

Em 1915 ou 1916, o irmão mais velho, Taufic chegou ao Brasil. Em 1918 meu avô veio a falecer, quando minha tia Victória era recém-nascida. Ainda em 1918 meu tio Michel também chegou ao Brasil. Em 1920 faleceu bem jovem o meu tio Jorge.

Em 1922 chegaram os demais familiares: minha avó Najla Semin Schahin, Emília, Linda, Abdo, Cairalla e Victória. Meus tios Taufic e Michel já trabalhavam no comércio, viajando por todo o Brasil, enquanto Abdo e Cairalla ainda menores, se empregavam no comércio da Rua 25 de Março, enquanto à noite estudavam contabilidade no Álvares Penteado.

Em meados dos anos 1930, os quatro irmãos homens se estabeleceram na Rua Vinte e Cinco de Março e, em seguida, na Rua Itobi, 80, formando a firma, Taufic, Schahin e Irmãos.  Entre os anos de 1955 até 1980, os Schahin vieram a ocupar a loja ao lado, de número 88.

Meu pai, Farah João Farah, na Síria tinha sido professor de matemática e no Brasil, inicialmente vendedor e em seguida, comerciante. Em 1936, minha mãe e meu pai vieram a se conhecer em convescote do Club Homs e após breve namoro e noivado, vieram a se casar em 24 de julho de 1937.

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Festa do casamento de meus pais, Emilia e Farah, realizado na casa da Rua São Salvador.

Do casamento tiveram os filhos: eu, João, Janete, que veio a falecer em 1950, e Ivete.  Meu pai, após longa enfermidade, veio a falecer em 1950 e, minha mãe, em 1959.

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Eu, João com 10 anos e minhas irmãs, Janete, com 7 anos, e Ivete, com 5 anos, vestidos para o baile infantil no Club Homs no Carnaval de 1949.

Em 1938, meu tio Taufic casou com Florinda Lotaif Schahin, tendo os filhos: Salim, Rubens, Milton e Rosemary. No mesmo ano, minha tia Victória casou com Nabih Assad Abdalla, tendo os seguintes filhos: Vivian, falecida em 2016, Sonia, Assad, Sandra e Denise.

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Minha tia Victória, no dia de seu casamento.

Os pais, Assad e Corgie Abdalla, um irmão e três das irmãs do meu tio Nabih, moraram em mansões na Avenida Paulista. A história da família de Assad Abdalla, que também tinham casa na Avenida Paulista, pode ser lida neste link.

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Da esquerda para a direita: Assad Neto, Lúcia, Vivian, Victoria, Sandra, Benjamin, Sonia e Nabih.

Meu tio Nabih presidiu o Esporte Clube Sírio, quando foi dado início às obras da atual sede e o Conselho Consultivo do Club Homs, quando seus integrantes eram eleitos pelos sócios, ele também foi Presidente da CCAB (Câmara de Comércio Árabe-Brasileira) e integrou as diretorias do Senai e do Sindicato da Indústria Têxtil de São Paulo.

Em 1949, meu tio Cairalla casou com Odette Anauate Schahin, provavelmente foi o primeiro casamento na Catedral Ortodoxa, no Paraíso.  O casal teve os seguintes filhos: George, Eliane e Carlos. Em 1950, minha tia Linda casou com Michel Raad, comerciante e proprietário de um escritório imobiliário.

Na segunda metade dos anos 1940, meus tios Taufic, Michel, Abdo e Cairalla adquiriram quatro tecelagens e continuaram com a loja da Rua Itobi, que depois foi chamada de Rua Cav. Basílio Jafet, até 1951, mantendo estas indústrias até meados dos anos 1950, quando a indústria têxtil em geral não vivia os belos tempos pós-guerra e, passaram novamente ao comércio, na mesma rua, já chamada Cav. Basílio Jafet, n°88.

Paralelamente, a partir dos anos 40, passaram a dedicar parte de suas atividades às entidades de nossa coletividade, destacando-se as atuações de Taufic no então Orfanato Sírio (hoje Lar Sírio Pró-Infância), Conselheiro do Club Homs, onde havia sido diretor em 1927, Conselheiro do Sanatório Sírio, atualmente o Hospital do Coração, enquanto o Abdo participava da diretoria do Club Homs, se elegendo presidente em vários mandatos entre os anos de  1946 e 1963 e Presidente do Conselho Deliberativo em 1962.

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Livro comemorativo dos 85 anos da Associação do Sanatório Sírio – HCor. A foto da da capa mostra a unidade de Campos do Jordão.

Durante os seus mandatos, juntamente aos valorosos companheiros de diretoria, conselheiros, sócios e colaboradores, foram construídos os dois primeiros salões, a primeira biblioteca, o primeiro restaurante, as salas de jogos recreativos, e a aquisição da segunda casa, na Avenida Paulista, n°755. Ele ainda participou do Conselho Administrativo Ortodoxo e da Câmara de Comércio Sírio – Brasileira, atual Árabe Brasileira, tendo também presidido as duas instituições.

O Michel e o Cairalla foram muito importantes nos negócios e nos apoios aos familiares, possibilitando que os irmãos Taufic e Abdo pudessem se dedicar às entidades. Em 1960, minhas tias, Florinda Lotaif Schahin e Victoria Schahin Abdalla, a convite de Violeta Jafet, passaram a fazer parte da Diretoria do Hospital Sírio Libanês, tendo pertencido à diretoria por mais de 40 anos, tornando-se em seguida Diretoras Honorárias.  Minha mãe e minha tia Linda se dedicaram muito às atividades domésticas, especialmente cuidando de minha avó.

Ao chegarem ao Brasil, os familiares moraram em um sobrado na Rua Virgilina Sales, na região da 25 de março, como a maioria da colônia síria que veio para o Brasil. Depois, mudaram-se para a R. João Adolfo, também no centro da cidade. A próxima residência foi na Rua Augusta, no lado do Bairro da Bela Vista, seguido de uma casa na R. São Salvador, no Jardim América e, daí foram residir na Avenida Paulista, primeiro no número 491 e, depois, no número 1079.

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Segunda casa do lado esquerdo da Avenida Paulista, em cartão postal da série Avenida Paulista II de Guilherme Gaensly, datado em 1902.

A casa da Avenida Paulista, construída em fins do século 19, sobre um terreno de 2.400 m², foi adquirida pelo meu tio Michel Schahin em outubro de 1950 e, a partir de fevereiro de 1951, inicialmente, teve os seguintes moradores: minha avó Najla, com os tios Michel e Abdo. Em agosto daquele ano, minha mãe Emília, minha irmã Ivete e eu mudamos para lá.

Em 1959, minha mãe faleceu e, no fim daquele ano, casou minha irmã Ivete, tendo a recepção sido realizada na mansão da Avenida Paulista.

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Minha irmã, Ivete, no dia de seu casamento.

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Ivete e seu marido Paulo Maldaun, rodeados pelos padrinhos: Vivian, Mário, Sonia e Benjamin, fotografados no jardim de inverno da casa.

Em 1964, passam a residir na casa, minha tia Linda Schahin Raad com seu marido Michel Raad, que não tinham filhos. Em dezembro de 1966, eu me casei, tendo a recepção sido lá realizada.

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Meu casamento, com a querida Ivany, em 17 de dezembro de 1966, aconteceu na Catedral Metropolitana Ortodoxa, com a recepção na casa da Avenida Paulista.

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Eu e Ivany com a tia Linda Schahin Raad e seu marido Michel Raad (à esquerda) na Catedral Metropolitana Ortodoxa.

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Ivany desce as escadas da mansão da Avenida Paulista.

Me recordo de várias recepções ocorridas na residência, com a presença de embaixadores e cônsules da Síria, homens públicos como o ex-Presidente Juscelino, amigos do Club Homs, Câmara de Comércio e de várias entidades.

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Abdo recepciona o ex-Presidente Juscelino Kubitschek na entrada da residência da Avenida Paulista em outubro de 1963.

 

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Nesta foto, as representantes da família com o ex-presidente: Rosemary, ao fundo, Ivete, ao lado de Juscelino, Victoria e Linda, de costas.

Uma outra comemoração importante, foi quando a Prefeitura da cidade Homs, na Síria, enviou de presente à Prefeitura de São Paulo um mobiliário em estilo árabe, pelo transcurso do IV Centenário de São Paulo, em 1954. A cerimônia de entrega foi no Club Homs, quando Jânio Quadros era Prefeito e, William Salem, Presidente da Câmara Municipal.

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Voltando à residência da Avenida Paulista: a mansão era muito ampla com uma grande sala de jantar e sala de almoço, copa, cozinha, 2 despensas e adega. Com muitos outros ambientes, contava com sala de brinquedos, salão árabe, sala de visitas, entre outras.

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Em uma comemoração, na sala de jantar na primeira casa da Avenida Paulista que a família morou, no número 491, em que podemos ver a partir do alto do lado esquerdo, Najla, Michel, Linda, Cairalla, Odette, Florinda, Victória, Nabih e outros convidados.

No jardim, havia belas jabuticabeiras, na casa também havia um galinheiro, um jardim de inverno com visão total para a Paulista, garagem, um sótão com vista para o Parque do Ibirapuera. A casa tinha uma edícula enorme com apartamentos grandes.

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Vista parcial da fachada principal da casa, com muitas árvores no entorno.

No andar superior, muitos dormitórios, mas o quarto do Sr. Michel era especial: tinha um terraço com vista admirável para toda São Paulo e, no amplo banheiro, as peças eram inglesas, lindas e de muita qualidade.

Em anúncio de falecimento da matriarca, de Najla Semin Schahin, em setembro de 1960, foi constatado a família se uniu por casamento à duas outras famílias de origem árabe – os Abdalla e os Lotaif, que também tinham casas na Avenida Paulista (veja a primeira publicação da história dos Abdalla neste link e dos Lotaif neste link).

A partir dos anos 40, os quatro irmãos investiram em negócios diversificados. Foram proprietários Malharia Royal, Tecelagem Regina e Tecelagem Najla, nome em homenagem a mãe

E como uma diversificação dos negócios construíram a Empresa Cinematográfica Cine Paris, o cinema que foi inaugurado em março de 1952, como um dos mais modernos daquela época.

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No dia da inauguração do Cine Paris: a matriarca, Najla, em primeiro plano, seguida de um convidado, Taufic, Florinda e Victoria.

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Notícia da inauguração do Cine Paris, publicada no jornal Estado de São Paulo

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Com projeto do arquiteto Americo Giglio, a sala de cinema ficava na Rua Barra do Tibagi, 657.  O filme inaugural foi “Rodolfo Valentino, com Eleanor Parker e Anthony Dexter.

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Os irmãos dirigiam todas as companhias de tecidos exercendo atividades diferentes em cada uma das empresas. Por exemplo, Abdo Schahin foi diretor financeiro da Companhia de Tecidos Schahin e vice-presidente da Tecelagem Regina, que também tinha na direção outros membros da família, como o próprio Michel, Taufic e Cairalla. Em 1950, Abdo aparece na direção da Fiação e Tecelagem Najla, e como acionista, na LAR – Companhia Textil, que pertencia aos meus tios Nabih Assad Abdalla e Victória Schahin Abdalla.

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Publicação de relatório financeiro da Cia. De tecidos Schahin, em dezembro de 1948, onde cada irmão aparece no desempenho de atividades diferentes.

Mais recentemente, os descendentes entraram em outros segmentos, como o Banco Schahin, que foi vendido para o BMG em 2010 e o a Holding Schahin, um conglomerado que atua na área de petróleo, engenharia, gás, etc.

A família Schahin morou na mansão da Avenida Paulista até a demolição, que aconteceu em meados dos anos 1980. O terreno foi vendido em 2004 para o ex-Prefeito de São Paulo, William Salem.  Ele era filho de João Salem, comprou o imóvel e incorporou o atual prédio ao imóvel, através da construtora de seu genro, Milton Gattaz.

Da mansão ainda restam as lindas memórias, fotografias e alguns móveis e utensílios espalhados nas residências de alguns descendentes, como esse conjunto de sala de jantar, ricamente decorado, que se encontra em minha casa.

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Por fim, queremos agradecer imensamente ao Arthur, que durante muitos dias, vêm nos municiando de muitas informações e imagens, e a enorme gentileza do Sr. João que, de forma muito acolhedora, nos recebeu em sua casa para relatar sobre a vida da família Schahin, que viveu muitos anos nessa mansão da Avenida Paulista.

História fascinante que hoje é compartilhada com todos vocês. Muito obrigada. Até a próxima!

Foto de capa: Valter Trijullo – 1982

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Paulistana até a alma, nasceu no Hospital Matarazzo, no coração de São Paulo. Passou parte da vida entre as festas da igreja Nossa Senhora Achiropita, os desfiles da Escola de Samba Vai-Vai e as baladas da 13 de maio no bairro da Bela Vista, para os mais íntimos, o Bixiga. Estudou no Sumaré, trabalhou na Berrini e hoje mora em Moema. Gosta de explorar a história e atualidades de São Paulo e escreveu um livro chamado “Ponte Estaiada – construção de sentidos para São Paulo” resultado de seu mestrado em Comunicação e Semiótica na PUC. É consultora em planejamento de comunicação e professora de pós-graduação no Senac.

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