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Série Avenida Paulista: da casa de Giulio Micheli ao Bradesco

Nesta semana apresentaremos a casa que era da família do Conde Giulio Micheli na Série Avenida Paulista, que era localizada no 145 da numeração antiga da avenida, bem próxima à Praça Oswaldo Cruz.

Giulio Micheli era um arquiteto italiano, de família nobre que foi formado em Paris. Segundo o livro “ Architettura Italiana a San Paolo”, de autoria de Emma Benedetti e Anita Salmoni:

“O conde florentino Giulio Micheli, que os paulistas de hoje recordam austero, com uma longa barba, havia chegado em São Paulo no ano de 1888, com vinte e seis anos de idade, diplomado há pouquíssimo tempo, cheio de ideias e de esperanças. Seu pai Vincenzo, também arquiteto, e diretor por muitos anos da Academia de Belas-Artes de Florença, desejando que o filho tivesse boas bases para o estudo, fez com que ele se formasse em Paris, e em seguida o fez viajar por toda a Europa”.

Em São Paulo, atuou como arquiteto, engenheiro e urbanista e deixou muitas construções importantes para a cidade. Como urbanista, contando como apoio da Seção Municipal de Engenharia, foi responsável pelo primeiro plano embrionário de urbanização da cidade. Ampliou e organizou as Ruas Libero Badaró, Amaral Gurgel, 25 de março, Avenida Tiradentes, a Avenida Anhangabaú, etc. e realizou o calçamento de um sem número de ruas, muitas delas bastante conhecidas de todos nós, como as Rua da Consolação, General Jardim, D. Veridiana, Galvão Bueno, São João, Conselheiro Carrão e Major Diogo, etc.

Em junho de1905, Micheli realizou obras na Avenida Paulista, entre as atuais Avenida Brigadeiro Luís Antônio até a Praça Oswaldo Cruz, inclusive onde era o terreno de sua casa, que não sabemos se já tinha sido construía nesta época.

Em agradecimento, os moradores publicaram o anúncio abaixo, que diz que a obra era tão boa que seguis as regras da arte e livrou os moradores do lamaceiro.

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Guillio Micheli, que foi abrasileirado para Julio Micheli, nas empresas e parcerias que formou, participou do projeto e construção de muitas obras públicas importantes, como por exemplo o Hospital Umberto I, que depois se tornou o Hospital Matarazzo.  Foi construído na parte central do terreno de 27.419 m2 o edifício que hoje é conhecido como Pavilhão Administrativo. De estilo Florentino, constitui-se de duas alas para cem leitos e sala médica.

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Hospital Matarazzo, São Paulo, início do século 20. Fotos de divulgação Condephaat.

Entre suas obras, que ainda permanecem na cidade, está a Santa Casa de Misericórdia. A partir de 1894, quando se associou a Luigi Pucci, arquiteto veterano muitas obras foram realizadas. Em 1915. O projeto do hospital foi concebido por ambos, com elementos da arquitetura eclética e Pucci confiou a Micheli a execução das obras e, posteriormente, deixou para ele o seu estúdio, após retirar-se dos negócios.

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Santa Casa de Misericórdia no início do século passado.
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Santa Casa atualmente.

Outro projeto de relevo do arquiteto italiano foi o Colégio Dante Alighieri. Em 9 de julho de 1911, nascia o “Istituto Medio Italo-Brasiliano Dante Alighieri”, no edifício denominado Leonardo da Vinci na Alameda Jaú.

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O mais famoso dos projetos de Micheli é o Viaduto Santa Ifigênia. Inaugurado em 26 de julho de 1913, o viaduto, construído com estrutura metálica importada da Bélgica, uniu o centro velho ao centro novo da cidade, fazendo a ligação entre as estações ferroviárias e o então luxuoso bairro dos Campos Elíseos. A obra, em estilo art noveau, contou ainda com a participação do engenheiro italiano Giuseppe Chiappori.

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Viaduto Santa Ifigênia. Foto: Guilherme Gaensly
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A beleza do Viaduto Santa Ifigênia atualmente.

Em 2 de maio de 1908 foi aberta a concorrência pública para a construção do viaduto com cinco empresas aprovadas Bromberg Haecker & Cia, Schmidt & Trost, Cia Mecânica Importadora, e Lion & Cia e a empresa vencedora de Giulio Micheli, que se associou a firma belga Aciéries d´Angleur, com um projeto bastante detalhado e um minucioso e preciso memorial de cálculo.

A construção muito complexa iniciou-se em 1910, inclusive por conta da grande quantidade de imóveis que foram desapropriados e demolidos.  O viaduto de 225 m de comprimento e 13,60 m de largura, necessitou de 1.100 toneladas de ferro importado da Bélgica.  No início, tinha leito carroçável, mas em 1978, ele foi restaurado e transformando em calçadão.

E a casa da família Micheli na Avenida Paulista?

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Além da localização, pouco ou quase nada sabemos…A residência aparece em listas telefônicas entre os anos de 1917 a 1920. Como o  Conde Giulio Micheli faleceu em 1919, talvez tenha sido vendida logo após a sua morte. Na foto, percebe-se algumas características do estilo florentino de arquitetura, mas não sabemos dizer se o projeto foi da autoria de seu proprietário. A partir de 1927 a casa já aparece no nome de Manoel M. Sayão.

No terreno da casa foi construído em 1982, um edifício de seis andares, com padrão corporativo de ocupação. Além da agência do Bradesco, o edifício é sede de empresas de médias empresas.

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Desde abril deste ano, a Japan Foundation São Paulo está ocupando o terceiro andar do prédio, a fundação é vinculada ao Ministério das Relações Exteriores do Japão, cujo objetivo é promover o intercâmbio cultural e a compreensão mútua entre o Japão e outros países.

A mudança de endereço se deveu à inauguração do centro cultural Japan House, inaugurado em maio deste ano, no mesmo terreno deste prédio ocupado pela fundação…mas  a Japan House ocupa um trecho onde se encontrava uma outra casa, provavelmente de aluguel, onde morou João Sayeg.  Mas esta história fica para outro domingo….

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Durante todo este ano a Japan Foundation realiza um curso completo e gratuito da História do Japão, com aulas uma vez por mês, aos domingos, sempre das 9 às 12 horas. (Mais informações http://www.abrademi.com/?p=1462). Aproveitem para conhecer um pouco da história deste fantástico país.

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Foto: Japan Foundation São Paulo
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Luciana Cotrim
the authorLuciana Cotrim
Paulistana até a alma, nasceu no Hospital Matarazzo, no coração de São Paulo. Passou parte da vida entre as festas da igreja Nossa Senhora Achiropita, os desfiles da Escola de Samba Vai-Vai e as baladas da 13 de maio no bairro da Bela Vista, para os mais íntimos, o Bixiga. Estudou no Sumaré, trabalhou na Berrini e hoje mora em Moema. Gosta de explorar a história e atualidades de São Paulo e escreveu um livro chamado “Ponte Estaiada – construção de sentidos para São Paulo” resultado de seu mestrado em Comunicação e Semiótica na PUC. É consultora em planejamento de comunicação e professora de pós-graduação no Senac.

1 comentário

  • Independentemente de que o projeto seja ou não do Giulio Micheli, o proprietário original, é deplorável terem demolido a casa em que ele morou em São Paulo, pois, como se mostra neste espaço, há construções relevantes cujo projeto é de sua autoria.

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