DICASSP ANTIGO & MODERNO

Série Avenida Paulista: dos Sicilianos ao Sir Winston Churchill

Nesta semana vamos conhecer a história de uma das esquinas mais famosas da cidade: a da Avenida Paulista com a Alameda Joaquim Eugenio de Lima, onde hoje se encontra o Edifício Winston Churchill.

Lá foi erguido o palacete de Alessandro Siciliano que ficava no número 807 da Paulista, e que deu lugar ao Edifício Winston Churchill – local onde ficam vários bares, na calçada que, por muito tempo, ficou conhecida como a prainha de São Paulo. Hoje a Paulista inteira é a praia dominical da cidade, não é mesmo?!

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Palacete de Alessandro Siciliano na Avenida Paulista.

 

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Alessandro Vincenzo Siciliano, nasceu em San Nicola Arcella, Calábria, na Itália em 17 de maio de 1860. Aos 9 anos de idade saiu da Itália, junto com seus pais, Biágio Caetano Siciliano e Teresa Alario, desembarcando em Santos, em busca de melhoria de vida no Brasil.

Jovem, morando no Brasil, onde ainda havia a escravatura, tornou-se um entusiasta da abolição. Comerciante nato, iniciou a vida dos negócios, em que alcançou notável êxito.  Conquistou, à custa de muito empenho e trabalho, algumas vantagens na indústria do café, inclusive patenteando uma invenção para beneficiar café e arroz que fez muito sucesso.

Em sociedade com Francisco Siciliano, seu irmão, fundou, em 1887, no bairro do Pari, a Companhia Mecânica Importadora de São Paulo. A chegada da empresa transformou por completo a fisionomia do bairro.

Foi um negócio de sucesso que só foi “aumentando sua produção de pontes metálicas, de máquinas para beneficiar café e de grandes peças metálicas para moinhos” (Fonte: Manera, em Piccazio, 1992). O empresário fez muito dinheiro com essa fábrica, que contava com filias em Santos e Rio de Janeiro.

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A indústria cresceu velozmente, ampliando a produção com a venda de postes para iluminação pública, material ferroviário, de grande significado à época, face à expansão da rede de ferrovias, particularmente em São Paulo.

Também se mostrou um grande importador de material cerâmico e sanitário, de produtos de ferro e, inclusive, de automóveis da marca italiana FIAT. Segundo o Jornal do Comércio, ele tinha “uma grande serraria a vapor, uma construtora e empreiteira e a Sociedade de Produtos Químicos L. Queiroz, entre outras atividades”.  Empreendedor dinâmico, assumindo riscos, Siciliano prosperou nos negócios, tornando-se um cidadão respeitado na sociedade paulistana.

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Torneira pública fabricada pela Companhia Mecânica e Importadora de São Paulo  que ainda funciona na cidade de Jacutinga, em Minas Gerais. Fotos: Marta Iansen.
Anúncio da Companhia Mecânica e Importadora de São Paulo revista A Cigarra Ano II nº 24 1º de agosto de 1915 - Série Avenida Paulista: dos Sicilianos ao Sir Winston Churchill
Anúncio da Companhia Mecânica e Importadora de São Paulo, divulgando uma lista de produtos que eram fornecidos ou representados pela empresa. Inclusive a fábrica de automóveis italiana FIAT. Publicado em 1º de agosto de 1915 na revista A Cigarra.

Em 1903 idealizou um projeto ousado para a formação de um consórcio de exportadores de café que visava levantar fundos com banqueiros europeus com o objetivo de financiar a retenção de estoques e barrar a queda nos preços do café e garantir a valorização do produto nacional.

Mais tarde, em 1906, esse projeto também foi adotado pelo Governo de São Paulo, que ficou conhecido pelo nome de Convênio de Taubaté e acabou se tornando um acordo entre os Governos de São Paulo, Minas e Rio de Janeiro, os três maiores produtores de café no Brasil.  Anos depois, verificou-se que o Convênio ficou mais famoso do que os resultados que realmente produziu, que não impediram a crise do produto em 1929, por falta de mercados, decorrência da crise econômica mundial daquele ano.

O grande empresário foi também diretor do Banco Francês-Italiano e fundou o Banco Italo-Brazileiro, foi Presidente da Câmara Italiana de Comércio e diretor-tesoureiro da Sociedade Paulista de Agricultura e Comércio e do Centro Industrial Paulista. Foi tesoureiro e um dos diretores fundadores da Associação Comercial, instituição exclusivamente brasileira, com um único estrangeiro, ele mesmo.

Por sua dedicação e pelos investimentos que fazia em sua terra Natal, entre as façanhas do empresário ítalo-brasileiro, conseguiu receber a condecoração pelo Rei da Itália, Vitor Emmanuel III, com os títulos de Cavaleiro, Comendador e Grande Oficial da Coroa da Itália. Em 5 de agosto de 1916, ele também foi agraciado com o título de Conde Siciliano dado pelo Papa Benedito XV, que posteriormente foi passado para seus descendentes primogênitos masculinos.

Alessandro Siciliano casou-se com Laura de Mello Coelho, mais tarde Condessa Siciliano, que era nascida de importante família da aristocracia paulista. O casal teve 04 filhos: Violeta, Alexandre, Paulo e Anna Theresa, esta última, tornou-se a avó-materna de Marta Suplicy.

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Projeto de Ramos de Azevedo para a mansão de Luiz Anhaia.

O palacete da Avenida Paulista em que morava a família foi construído em 1896. A residência foi projetada pelo escritório de Ramos de Azevedo a pedido de Luiz Anhaia, proprietário inicial do terreno. Por alguma razão Anhaia não ficou no casarão e, em 1911, a casa foi vendida ao já industrial e banqueiro, Alessandro Siciliano.

O imóvel ficava localizado no número 126 da Avenida Paulista, onde hoje é o atual número 807. Tratava-se de uma grande área construída, com vários cômodos muito amplos, sala de leitura, sala de jantar, salão de jogos e dependências externas para acomodação de empregados, além da garagem e amplo jardim. Podemos ver alguns de seus ambientes nas imagens abaixo.

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Ambientes externos e internos do palacete de Alessandro Siciliano.

O grande empresário morreu no dia 19 de fevereiro de 1923, aos 63 anos de idade, no Rio de Janeiro. Seu falecimento causou grande impacto na cidade de São Paulo, fato que levou uma grande multidão a aguardar a chegada de seu corpo na Estação da Luz, para as últimas homenagens. Dali, o caixão seguiu até o Sagrado Coração de Jesus, onde foi feita uma grande missa fúnebre. Após o término da cerimônia, seu corpo seguiu até o Cemitério da Consolação. O seu túmulo, que está na rua 22, terrenos 3 e 4, é destaque de arte tumular e é visitado por turistas.

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Mausóleo da família Siciliano no Cemitério da Consolação recebe visitas dos turistas interessados em arte tumular.

Após a sua morte, o palacete do Conde Alessandro Siciliano duraria mais algumas décadas até ser demolido. Nos anos 1970, o palacete foi uma das primeiras mansões a cair na Avenida Paulista, quanto esta começou a se valorizar, com o preço do terreno cada vez mais alto e vantajoso. Localizado na esquina da Alameda Joaquim Eugênio de Lima, o imóvel deu lugar ao Edifício Winston Churchill, na Paulista número 807.

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Edifício Winston Churchill, na Paulista, 807.

O Edifício Winston Churchill foi fundado em 13 de março de 1972, uma monumental construção à época. Construído na quadra ente a Paulista e as Alamedas Santos e Joaquim Eugenio de Lima, com entrada de pedestres nas três ruas com acesso à galeria de lojas, um mini shopping que fica no andar térreo.

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Foto do edifício em construção na década de 1970. Foto: divulgada pela Rádio Jovem Pan.

Em seu site, denominado Condomínio Edifício Sir Winston Churchill foi publicado o seguinte texto de apresentação:

Em 1971, cartazes eram afixados chamando compradores para os escritórios e lojas que se abririam. Sob o slogan “Todo Homem tem seu dia de Vitória“, os cartazes alertavam para a rentabilidade dos imóveis da região e seu potencial.

Utilizando frases alusivas ao estadista que lhe rendeu o nome, o empreendimento foi ofertado com ineditismo no que dizia respeito ao sistema ‘self-promotion’, que assegurava promoção permanente às lojas e manutenção de tráfego contínuo de compradores, tomando como exemplos os prédios comerciais americanos e europeus do momento.

A Gomes de Almeida Fernandes anunciava que “põe toda sua técnica e arrojo num edifício de concepção digna de nossa época”. Com 40,33m na Avenida Paulista, 118,76m na Alameda Joaquim Eugênio de Lima e 46,33m na Alameda Santos caracterizava o que chamaram à época de “o ponto da Vitória“.

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Fachada do Edifício Winston Churchill. Foto: Fabricio Nogueira Costa

O edifício com estilo moderno possui uma galeria de lojas comerciais no térreo, uma inovação à época. Nesta galeria foi lançando o cinema Gemini 1 e 2 que foi aberto em 1975 e movimentou a cena cultural da cidade, com sua decoração vintage herdada dos anos 60, e muito charme com carpetes com desenhos geométricos em azul e vermelho, cada cor para uma sala do cinema. Virou hit naquele período e depois sofreu um grande período de decadência, quando as grandes redes aportaram no país. Fechou as portas em 2010.

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Ambientes do cine Gemini com suas salas vermelho e azul. Fotos inferiores: Carlos Alkmin

Dois outros espaços marcam a existência deste edifício. A torre da rádio Jovem Pan que foi planejada desde a construção do prédio e continua lá até hoje.

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Foto do edifício em construção na década de 1970. Foto: divulgada pela Rádio Jovem Pan.

Segundo o site do edifício, atualmente o condomínio “recebe, em média, 1300 visitas diárias registradas e possui mais de 1800 usuários cadastrados e 70 lojas com acessos nas três vias que o circundam”. E, claro, que não podíamos deixar de registrar, com uma imagem, a quadra lateral, na Alameda Joaquim Eugenio de Lima, com seus inúmeros bares e lanchonetes, que ficou famosa pelo movimento e, por muitos anos foi a prainha paulista, inclusive um dos bares assumiu o nome e foi batizado de “A prainha”.

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Este realmente é um ponto da Avenida Paulista e da cidade com muita memória e história para contar.  Algumas dúvidas permanecem e se alguém puder ajudar a responder:

Será que a família que construiu a conhecida Livraria Siciliano, que foi fundada por Pedro Siciliano em 1928 e comprada pela Saraiva em 2008, era de descendentes de Alessandro Siciliano?

As salas do Gemini continuam fechadas até hoje. Houve até uma iniciativa do Cine Sesc ir para lá. Alguém saberia dizer como anda este processo?

Essas são questões que requerem contribuição dos leitores da Série Avenida Paulista.  Fiquem com a bela imagem da Avenida Paulista clicada por Tiane Silva em um dos últimos andares altos do  edifício. Até a semana que vem.

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Conheça mais histórias dos casarões da Paulista aqui.
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Luciana Cotrim
the authorLuciana Cotrim
Paulistana até a alma, nasceu no Hospital Matarazzo, no coração de São Paulo. Passou parte da vida entre as festas da igreja Nossa Senhora Achiropita, os desfiles da Escola de Samba Vai-Vai e as baladas da 13 de maio no bairro da Bela Vista, para os mais íntimos, o Bixiga. Estudou no Sumaré, trabalhou na Berrini e hoje mora em Moema. Gosta de explorar a história e atualidades de São Paulo e escreveu um livro chamado “Ponte Estaiada – construção de sentidos para São Paulo” resultado de seu mestrado em Comunicação e Semiótica na PUC. É consultora em planejamento de comunicação e professora de pós-graduação no Senac.

8 Comentários

  • Parabens Luciana por mais essa!!! Pena q não consigo gostar da Avenida hj como gostava no meu tempo!! Sempre q devo ir até la, choro…aquela massa de gente apressada q vem e q vai sem imaginar q ali era minha casa acolá era a casa da familia Paes de Barros etc etc

    • Anne, obrigada mais uma vez! O tempo faz o que vemos hoje e o problema é não preservamos aquilo que já fomos!!! Não é mesmo? Pelo menos poderíamos curtir hoje um pouco do que já fomos. A Casa das Rosas é um exemplo disso. bjs

  • Eu concordo que era muito lindo, mas também gosto da Paulista atual. Uma pena que não preservaram os palacetes

  • Maravilha que foi São Paulo naquela época.
    Como teria sido maravilhoso andar por essa avenida naqueles dias.
    Uma perda irreparável a destruição de todas essas mansões magníficas, e com elas também se foi a história dessas décadas tradicionais.
    Morei nessa área nos anos de 60/70, quando ainda restavam algumas mansões intactas, como a do Matarazzo.
    À ganância ganhou a batalha, e hoje essa Avenida não é mais dos paulistanos. É de quem quiser.

    • Valera, tem muita gente, como eu, tentando resgatar a história e a memória desta época. Se não tivemos a oportunidade de viver nesta época precisamos preservar o resta e divulgar a historia. Se quiser ver, tem um site que esta construindo em 3D a Paulista destes tempos. Acesse http://www.janeladahistoria.com/

  • Chorei ao ver a casa e lembrar daquele tempo. Em 1970 fui com meu pai e um amigo naquela casa, levaram um documentos e a pessoa assinou. Era uma casa maravilhosa, me lembro dos detalhes e até do cheiro dos móveis!
    Parabéns pela matéria.

    • Décio, muito obrigada! Fico muito feliz em tocar os nossos leitores! Se lembrar de alguns detalhes da casa, posso incluir sua lembrança no texto. Sem dúvida vai enriquecer!!

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