Série Avenida Paulista: Joaquim Franco de Mello – um dos primeiros e o último casarão da avenida

Série Avenida Paulista: Joaquim Franco de Mello – um dos primeiros e o último casarão da avenida

Nesta semana, a Série Avenida Paulista apresenta a residência de Joaquim Franco de Mello, que foi um dos primeiros casarões construídos na avenida, em 1905, e também o único exemplar da primeira geração de casas da Paulista.  Apenas este fato faz dela um ícone emblemático da cidade.

Diferente de grande parte dos textos postados aqui, hoje trazemos uma parte de um excelente artigo que foi publicado na Revista CPC da USP – Universidade de São Paulo, em dezembro de 2015. O título do artigo é “A residência de Joaquim Franco de Mello em três tempos”, escrito pelos seguintes autores: Joana Mello de Carvalho e Silva, Pedro Beresin Schleder Ferreira, Camila Raghi, Eduardo Ferroni e Pablo Hereñu.

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Foto: Manoel de Brito

Aproveitem para conhecer a história completa da casa de Franco de Mello que, na numeração antiga, era o número 54 e, atualmente, está localizada no 1919 da avenida. Boa leitura!

“Joaquim Franco de Mello nasceu em Rio Claro, em 1880, mudou-se com seus pais para São Paulo com seis anos de idade. Dizia-se neto de Prudente de Morais, ex-presidente da República e expoente político da oligarquia cafeeira em fins do XIX. De acordo com a Genealogia Paulistana de Luiz Gonzaga da Silva Leme, o tio de Joaquim Franco de Mello foi casado com a filha do Dr. Prudente José de Moraes Barros. A relação entre Joaquim e o ex-presidente, portanto, era de “sobrinho-neto” em lei e não por hereditariedade de seu próprio tronco familiar. Dada a distância, é possível que não houvesse muito contato entre os dois. Isso não o impediu de, ao ser preso por “perturbação do trânsito” em 1927, fazer escandalosa declaração ao Diário Nacional dizendo ter nascido em Piracicaba (terra na qual o ex-presidente viveu parte de sua vida) e que lá tinha enterrados seus avós, dentre eles o “saudoso” Prudente de Morais (Diário Nacional, 17 dez. 1927). (…)”.

“Pouco após contrair casamento com Lavínia [Dauntre Salles de Mello], em 1905, Joaquim comprou o lote na Avenida Paulista para a construção de seu novo lar, afinal casa e casório também estavam intimamente ligados. A residência, para membros da elite, era o quartel general do casal, de onde partia o agenciamento de seu status e dos negócios, conquistando a maturação social e autonomização econômica do novo núcleo familiar.

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Na foro à esquerda, retrato de Joaquim Franco de Mello, 1937. Fonte: Fallecimentos. O Correio Paulistano, 10 dez. 1937. E à direita, D. Lavínia Dauntre Salles de Mello com os filhos Raul (à esquerda), Raphael (à direita) e Rubens (à frente). Fonte: Álbum de família.

Junto das recepções, as atribuições físicas da casa, informavam aos outros os valores, a riqueza e as relações da família: a começar pela escolha do bairro, passando pela elegância de sua aparência externa, até a mobília que povoava o lar. (…)”.

“O terreno comprado por Joaquim do Banco de São Paulo era próximo à Vila Fortunata, onde Alexandre Honoré Marie Thiollier e sua família mantinham uma casa de campo. (A história da casa pode ser lida aqui) (..). O lote de 118m de comprimento por 40m de largura foi divido por Joaquim em duas partes de 20 x 118m, deixando o lote mais próximo da residência de Thiollier vazio, provavelmente para a realização de negócio que não se concretizou, e o outro para a implantação de sua residência. Isso explica porque, hoje, a casa parece descentrada em relação ao lote original, de 40m de largura.

“A residência de 1905 foi empreendida sob encomenda de Joaquim a Antonio Fernandes Pinto. Sem diploma de engenheiro ou arquiteto, o empreiteiro português, após a obra, largou rapidamente sua profissão de construtor para viver de juros, à semelhança de seu antigo contratante, tornando-se proprietário de prédios de aluguel. (…)”.

“Esquematicamente, a casa podia ser dividida em três áreas: a frontal, onde estavam os cômodos relacionados à recepção (sala de visitas) e ao trabalho (escritório); intermediária, onde se concentrava a vida familiar (sala de jantar e quartos); e fundos, com as peças de serviço (cozinha, copa e despensa) e higiene (latrina e banheiro). (…)”.

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Sala de jantar da residência Joaquim Franco de Mello. Fotografia: Pedro Napolitano.

“Para acessar o porão, havia, em 1905, uma escada próxima à despensa, que devia ser utilizada para o cotidiano dos criados. Além da entrada principal para a casa, certamente a mais utilizada pela família, havia também uma entrada lateral, que dava acesso direto à sala de jantar, provavelmente utilizada em ocasiões solenes. (…)”.

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Porão da residência Joaquim Franco de Mello. Fotografia: Camila Raghi.

“O recuo frontal da Avenida era de 10m, dando volume ao espaço para desenvolver sua expressão. Junto de outros afastamentos (7m da lateral lindeira ao outro terreno de Joaquim, 5m da outra lateral, e mais de 60m aos fundos) permitia a imersão da casa em um contínuo jardim, constituindo uma espécie de moldura que enquadrava a obra arquitetônica como um objeto de apreciação isolada, separada da cidade e de seus vizinhos. O deslumbre visual se associava às atividades desenvolvidas na casa, sendo uma das principais a realização dos negócios de Joaquim. (…)”.

“Joaquim possuía cerca de 40 imóveis na região central da cidade e realizou loteamentos de terras no interior do estado, todos administrados desde seu próprio lar. O escritório e a sala de visitas, espaços de contato direto da família com os de fora, eram os cômodos que faziam frente à Avenida. O acesso a ambos se dava por um pequeno vestíbulo que funcionava como um “filtro” de separação e distribuição da vida familiar (sala de jantar), da vida laboral (escritório), da recepção (sala de visitas) e do espaço externo. Assim, como em tempos passados, trabalho e residência, apesar da separação espacial, misturavam-se no ambiente doméstico. (…)”.

“(…). Em 1913, foi construída uma garagem para automóveis nos fundos, com quarto para o chauffeur. Os passeios de automóvel eram o grande fascínio do momento, sendo o desfile da Avenida Paulista um dos mais famosos da cidade. Curiosamente, provavelmente para ornar com o caráter recluso da casa, a garagem foi construída com linguagem também predominantemente de chalé, realizada pelo mesmo construtor”.

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Foto tirada em 1990 da edícula/garagem da Residência Franco de Mello. Fonte: Processo de tombamento da Residência n. 1919 da Av. Paulista. Condephaat, 1982.

“Em 1907 nasceu o primeiro filho do casal, Raphael. Na década seguinte, nasceram os outros dois, Raul e Rubens. O aumento da família, e também seu enriquecimento, podem justificar a necessidade de ampliação da casa, empreendida em 1921. O terreno vizinho, comprado originalmente para negócio, tornou-se o jardim da residência. Da casa antiga, sobraram apenas as estruturas dos cômodos frontais, mudando completamente sua expressão arquitetônica e espacialidade interna.

Àquela altura, a Avenida Paulista já se incorporava mais e mais à cidade. A passagem do suburbano para o urbano se vincula à mudança do estilo de retiro romântico para um eclético mais palaciano. O projeto foi realizado pelo construtor Luiz Ferreira e com desenhos das fachadas elaborados pelo arquiteto Armando Reimann, do qual pouco se sabe, a não ser que trabalhou no Escritório Técnico Ramos de Azevedo durante a década de 1910. Essa reforma definiu a volumetria e a maior parte dos elementos das fachadas atuais. (…)”.

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Foto da residência Joaquim Franco de Mello feita do passeio da Av. Paulista, em meados dos anos 1930. Fonte: MELO, Arnaldo de. Remanso na Avenida. Trabalho Final de Graduação – Escola da Cidade, São Paulo, 2006.

“A nova expressão externa da casa é decerto mais formosa e exuberante do que a anterior, porém esse trato é dado apenas à fachada frontal e à parte visível das laterais a partir da rua. A parte intermediária da casa, assim como os fundos, possui ornamentação bastante simplificada, mais despojada. (…)”.

“Esse efeito é ressaltado ainda pela diferença das coberturas: na frente e em parte do corpo lateral, uma mansarda à francesa, alta e imponente, enquanto nos fundos e, na outra parte do corpo lateral, há um telhado mais baixo, de telhas francesas, embutido em platibandas. Visto da rua, o telhado frontal esconde o outro por sua altura, assim como a ornamentação da parte das laterais, junto com a vegetação, esconde a sobriedade dos fundos. (…)”.

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Lateral da residência Joaquim Franco de Mello. Fotografia: Camila Raghi.

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Fundos da residência Joaquim Franco de Mello. Fotografia: Pedro Napolitano.

“O conforto parece ser a regra do espaço interno, talvez com exceção da “sala dourada”. Os cômodos são todos de porte médio, sem arroubos ornamentais majestosos. O assoalho e os lambris de madeira escura dão um tom “inglês” de sobriedade e repouso, sofisticado, mas simples, à maneira de um refinado chalé, indicando possível manutenção de certos traços da morada original, de 1905.

O jogo entre luz e sombra, em que a segunda predomina, é acolhedor e mantém a temperatura amena. Nas paredes, as pinturas são de cores foscas e a decoração art noveau induz à quietude se comparada à dramaticidade da fachada. O forro, também de madeira escura, tem um padrão simples, dando pouco destaque à verticalidade do pé-direito. É antes um lar do que um palácio. (…)”.

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Corredor da residência Joaquim Franco de Mello. Fotografia: Camila Raghi.

A partir da reforma de 1921, “o antigo escritório torna-se hall de entrada, sendo algumas de suas antigas funções transferidas para o subsolo. Com a adição do terraço da frente e a incorporação dos antigos quartos na sala de visitas, esta, se torna a “sala dourada”, denominação literal, que diz por si própria a qualidade de deslumbre brilhante que irradiavam os papéis de parede, os lustres e os móveis. Seu uso era reservado apenas para a recepção de ilustres convidados.

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Sala de estar da residência Joaquim Franco de Mello. Fotografia: Pedro Napolitano.

Para a vida familiar, ao lado, havia outra sala de estar, contígua a uma saleta de música, onde ficava o piano de parede de D. Lavínia fazendo par com o violino de seu filho Raul. A exibição dos dotes musicais provavelmente também fazia parte do cortejo aos visitantes, demonstrando a elevada educação da senhora e de sua cria.

Na parte intermediária, são construídos novos dormitórios para os filhos, com um ambiente reservado para vestiário, e o quarto do casal é ampliado com sua ligação, através de colunatas, a um novo quarto de vestir. (…)”.

“As portas de vidro, instaladas entre todos os cômodos da área frontal, e a retirada dos vestíbulos do corredor, permitiram que a luz adquirisse grande fluidez no espaço, criando uma ambiência que, apesar de segregada, é também contígua. (…)”.

“As portas que ligam a sala de visitas com a “sala dourada”, a saleta de músicas, o hall de entrada e a sala de jantar são duplas e, quando completamente abertas, permitem a criação de um grande salão. (…)”.

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As fotos acima mostram a ambiência da residência. Fotografias: José Adolpho Gordo.

“Na nova casa, o hall interno ocupa o espaço da antiga copa, possivelmente configurando-se cotidianamente como uma sala de almoço, como relatado por Renato Franco de Mello, e indicado por uma pequena pia de lavar mãos, remanescente no cômodo. Para esse hall foi transferida a escada de acesso ao porão, atestando que novos usos podem ter sido dados aos porões.

Possivelmente, parte das atividades de escritório de Joaquim foi transferida para os cômodos frontais do andar inferior, o que explica a mudança da escada da entrada principal poucos metros para o lado, viabilizando a construção de uma entrada pela frente para o porão e uma conexão mais direta com a Avenida Paulista.

Nesses cômodos funcionavam sua biblioteca e depósitos onde guardava plantas de loteamentos e as chaves dos imóveis que alugava. Esses ambientes eram mais cuidados do ponto de vista dos acabamentos, contando, inclusive, com ornamentação nos forros, luminárias, pinturas decorativas nas paredes e colunas de inspiração oriental.

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Depósito e biblioteca de Joaquim Franco de Mello no subsolo de sua residência, com as colunas de inspiração oriental. Fotografia: Pedro Napolitano.

Nos quartos posteriores, com um novo acesso pelo recuo lateral esquerdo, foram dispostas as habitações dos serviçais, que eram separadas entre homens e mulheres, demonstração dos arroubos moralizantes da família.

Na cozinha não houve grandes mudanças, exceto pela instalação de alguns equipamentos que devem ter otimizado (e tornado menos exaustivos) os serviços domésticos. (…)”.

“O luxo da fachada, o conforto interior e o esplendor dos jardins não são capazes de ofuscar as tensões sociais das quais a casa também era palco. (…)”.

“No dia 6 de fevereiro de 1924, um homem penetrou na sala de visitas dos Franco de Mello e sob o pretexto de entregar uma carta à D. Lavínia tentou estrangulá-la com as próprias mãos (Correio Paulistano, 6 fev.1924). A dimensão deste crime fratura o quadro de equilíbrio social, mostrando como, apesar das sólidas aparências, a estruturação da cena era frágil. Esse evento relativiza, portanto, a interpretação de que o afastamento da casa da via proporcionava um resguardo à família. (…). Da mesma forma, a dependência do lar de trocas constantes com a rua era muito maior: todos os dias chegavam e saiam mensageiros levando telegramas, entregadores de pão e leite, entravam e saiam os serviçais etc. (…)”.

“Viúva a partir de 1937, Lavínia Dauntre Salles de Mello continuou a morar com seus filhos na mesma residência. Solteiro, Raphael permaneceu mesmo depois da morte de sua mãe, em 1954, ali morando até a final de sua vida, em 1978. Raul e Rubens, por sua vez, deixaram a casa onde nasceram para retornar nos anos de 1950 e 1980, respectivamente. Ambos, além do atual morador Renato Franco de Mello, filho de Rubens, são os responsáveis pela maior parte das transformações realizadas no imóvel a partir de meados do século XX.

Nesse ínterim, ocorreram mudanças na organização interna da residência, com a abertura de portas, a formulação de um novo banheiro, o fechamento da varanda lindeira à cozinha, e a união de dois quartos.

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Fotografia: Aghemio Marc.

Nota-se também uma acelerada deterioração do imóvel, que se encontra atualmente com problemas de conservação de toda ordem, desde os acabamentos e pinturas decorativas até as instalações elétricas e hidráulicas.

Até 1949, o terreno era ocupado apenas pela residência principal e pela edícula, ambas cercadas por jardim, bosque e pomar. Em 1953, deu-se início a primeira transformação significativa do imóvel, com a construção da residência de Raul nos fundos da casa de seus pais, fazendo frente para a Alameda Santos, e de um anexo que abrigava um biotério, inaugurado em 1957.

Quase duas décadas depois, uma nova intervenção afetou o imóvel com a desapropriação de 10m do recuo frontal para alargamento da Avenida Paulista, realizada entre 1971 e 1974. Em função dessa obra, o muro frontal do imóvel foi demolido e reconstruído segundo desenho original, mas apenas parcialmente e no novo alinhamento do terreno. (…)”.

“Novas modificações ocorreram em 1985, quando o terreno original foi partilhado entre os irmãos, dando origem a duas novas matrículas imobiliárias. Uma referia-se ao lote registrado em nome de Raul, voltado para a Avenida Paulista. Com 40m de frente e 50m de comprimento, este é o terreno que engloba a Residência Franco de Mello.

Com frente para a Alameda Santos, a segunda matrícula é referente ao lote registrado em nome de Rubens. Com 40m de frente e 68m de profundidade, o mesmo englobava a residência e o anexo construídos em 1953, além da edícula erguida em 1913.

A separação da propriedade original ocorreu três anos depois da abertura do processo de tombamento pelo Condephaat e durante o período de revisão do parecer favorável inicial em função da contestação dos proprietários.

É significativo que ela tenha sido assimilada pelo órgão e seus conselheiros que, em seus comentários e definições, consideram apenas o imóvel voltado para a Avenida Paulista, desconsiderando as edificações erguidas no terreno junto à Alameda Santos. De fato, não há comentários sobre a residência de 1953, nem sobre a edícula de 1913 ou o biotério.

Além disso, já em 1987, o conselheiro Carlos Lemos indicou interesse em pensar no tombamento considerando aproveitar o potencial construtivo da área sem prejuízo da preservação do edifício [principal] e da mata remanescente, conforme se realizara na Casa n. 37 da Avenida Paulista (casa das Rosas). (…)”.

“A década de 1990 abriu o conjunto mais radical de transformações. Foi construído um muro de divisa que separou os dois lotes. Nesse mesmo ano, a residência de 1953, o biotério e a edícula, que não foram objeto de tombamento, foram demolidos para a construção, em 1991, do Edifício Parque Paulista, projeto do escritório Botti Rubin Arquitetos. Aproveitando o potencial construtivo do imóvel, o edifício segue a orientação de Carlos Lemos de se configurar como um pano de fundo que, além de não interferir, dá destaque à Residência Mello Franco.

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Residência Franco de Mello com Edifício Parque Paulista ao fundo. Fotografia: Pedro Napolitano.

Nesse mesmo ano de 1990, foi retirada a forração original e um conjunto de árvores de grande e médio porte do terreno da Residência. Tal intervenção, ensejada pela exploração do imóvel pela empresa de estacionamentos Multipark, descaracterizou o jardim externo. Em virtude dessa intervenção, realizada antes do tombamento definitivo do imóvel, quando este ocorreu a proteção ao jardim ficou restrita às árvores de grande porte.

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Imagem do jardim depois da intervenção do Multipark. Fonte: Processo de tombamento da Residência n. 1919 da Av. Paulista. Condephaat, 1982.

No mesmo período, o imóvel começou a ser ocupado para outros usos. Além do já mencionado estacionamento, a casa abrigou um sebo de livros e discos, um restaurante, um bar, um clube, um antiquário e empresas de eventos e promoções. Para abrigar essas funções algumas adaptações foram realizadas, especialmente nas instalações hidráulicas e elétricas, mas sem o planejamento e o cuidado necessários. Também foi construído um palco de estrutura metálica no lado esquerdo da casa para a realização de eventos.

O atual morador, Renato Franco de Mello, conta que alugava praticamente todo o piso térreo da edificação para os eventos, sendo mantida para sua moradia apenas o quarto de casal e a cozinha. Ele tem mantido o edifício, mas sem conseguir realizar os serviços de manutenção necessários à qualidade ambiental e à segurança do imóvel. (…)”.

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Feira de Natal realizada na casa em 2009. Fotos: Aibe acessórios.

“Pelos usos que abrigou, a Residência Franco de Mello se tornou uma referência também nesse novo contexto e, não por acaso, abrigará o Centro de Cultura, Memória e Estudos da Diversidade Sexual do Estado de São Paulo. (…)”.

“O Centro de Cultura, Memória e Estudos da Diversidade Sexual foi objeto de edital PROAC n. 13/2014, promovido pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo através do Concurso de Apoio a Projetos para Restauração de Imóveis Tombados pelo Condephaat. O vencedor do concurso, escritório Hereñu + Ferroni Arquitetos, está desenvolvendo o projeto básico de arquitetura, restauro e paisagismo. Tal desenvolvimento implicou na revisão da proposta vencedora, em função do maior conhecimento das condições do imóvel a partir de um minucioso levantamento da edificação e das espécies vegetais existentes, assim como das solicitações dos órgãos de preservação e da direção do Museu da Diversidade Sexual.

Conforme mostrado em seu histórico, os valores atribuídos à Residência Franco de Mello não se limitam ao seu uso residencial original e nem simplesmente ao seu valor material e documental. Marco da apropriação pública e de manifestações coletivas da Avenida Paulista, essa edificação é hoje uma referência simbólica para diversos grupos sociais, além dos de elite.

Nesse sentido, aos usos, sociabilidades e valores ligados aos modos de viver das elites de princípios do século XX foram sobrepostas novas camadas de apropriação e valoração por quem vivencia a Avenida Paulista. Entre eles os movimentos sociais, que darão sentido ao novo uso do Museu. A escolha de um dos últimos exemplares residenciais ecléticos na Avenida Paulista, cartão postal da cidade, e a concessão da propriedade pelo Estado, são significativas da conquista política pela busca da visibilidade ao movimento contra o preconceito e discriminação contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT).

Diante dessas duas instâncias, o projeto de restauro e intervenção procura estabelecer diálogos entre valores antigos e contemporâneos do edifício e de seu entorno… (…)”

“Com a intervenção, a Residência Franco de Mello abrigará as três funções principais relativas ao Museu: pública, administrativa e de serviços, e se conectará ao novo edifício anexo através de suas aberturas presentes na fachada posterior. O projeto foi desenvolvido para que o “coração” do Museu, ou seja, as áreas públicas e de exposição de longa duração estivessem localizadas no pavimento principal da edificação.

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Perspectiva do projeto do Centro de Cultura, Memória e Estudos da Diversidade Sexual do Estado de São Paulo apresentada no Concurso de Apoio a Projetos para Restauração de Imóveis Tombados pelo Condephaat em 2014. Fonte: H+F Arquitetos.

Foi proposta à direção do Museu, aproveitando os documentos e a narrativa elaborada na pesquisa, uma exposição recuperando a história da edificação, de modo que o público possa recompor os usos e modos de vida ali encenados nas primeiras décadas do século XX. Além dessa, foi proposta outra exposição, dedicada à história da família brasileira, na qual a organização familiar primeira da Residência é confrontada com os novos arranjos familiares, reivindicados principalmente pelos movimentos LGBT.

Nas edificações novas, o programa se distribui de forma a abrigar os seguintes usos: acolhimento, exposições temporárias, biblioteca, auditório, gestão do acervo, reserva técnica, conservação e restauração, estúdio de gravação, área técnica e restaurante. (..) O acesso principal do Museu ocorrerá pelo edifício anexo, a partir de uma passarela de ligação com a Residência. (…)”

“O objetivo fundamental do projeto é reforçar a construção de uma sociedade pautada pelas noções de respeito e de tolerância à diversidade sexual, levando-se em conta a história do imóvel, suas características arquitetônicas e paisagísticas.

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Perspectiva do projeto do Centro de Cultura, Memória e Estudos da Diversidade Sexual do Estado de São Paulo apresentada no Concurso de Apoio a Projetos para Restauração de Imóveis Tombados pelo Condephaat em 2014. Fonte: H+F Arquitetos.

Este extrato do texto, que foi publicado no fim de 2015,escrito próximo à divulgação do projeto do Museu da Diversidade. Sabemos que, embora seja uma iniciativa excelente, ainda não foi construído, pois existem pendências que precisam ser resolvidas entre os descendentes da família Franco de Mello e o Governo do Estado de S. Paulo.  Para acessar o artigo completo do artigo “A residência de Joaquim Franco de Mello em três tempos” basta acessar este link

Agradecemos também a José Adolpho Gordo e Aghemio Marc, autores de algumas das fotos publicadas.

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Foto: Rafael Henrique Meireles

Foto de capa:  12/08/2012, Av. Paulista/SP por Everton Bonturim

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Paulistana até a alma, nasceu no Hospital Matarazzo, no coração de São Paulo. Passou parte da vida entre as festas da igreja Nossa Senhora Achiropita, os desfiles da Escola de Samba Vai-Vai e as baladas da 13 de maio no bairro da Bela Vista, para os mais íntimos, o Bixiga. Estudou no Sumaré, trabalhou na Berrini e hoje mora em Moema. Gosta de explorar a história e atualidades de São Paulo e escreveu um livro chamado “Ponte Estaiada – construção de sentidos para São Paulo” resultado de seu mestrado em Comunicação e Semiótica na PUC. É consultora em planejamento de comunicação e professora de pós-graduação no Senac.
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