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Série Avenida Paulista: da mansão dos Scuracchio ao Paulista 2028

Nesta semana apresentaremos a mansão do Comendador João Baptista Scuracchio, que se localizava na Avenida Paulista n.º 33-A, entre as Ruas Augusta e Peixoto Gomide onde hoje está instalado o Edifício Paulista 2028.

O italiano João Baptista Scuracchio nasceu m 25 de fevereiro de 1886. Quando veio para o Brasil, alojou-se primeiramente na cidade de São Carlos, no estado de São Paulo, mas pouco tempo depois, mudou-se para a capital a procura de novos negócios. Assim que chegou à cidade, casou-se com Nicolina e teve 5 filhos.

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O comendador João Baptista Scuracchio em foto publicada no Jornal Correio Paulistano em fevereiro de 1929.

Na vida profissional dedicou-se ao comércio, tanto de importação como de exportação, até os anos 1920. Teve destaque na exportação do café e na importação de artigos italianos para o Brasil, fortalecendo os laços entre os dois países.

Era membro do conselho da associação comercial e, por meio dela integrou, em abril de 1910 a comissão responsável pelas exposições de Turim e Roma na Câmara do Comércio.

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Foto dos membros da comissão das exposições de Turim e Roma na Câmara de Comércio.

Empreendedor como era, logo após a primeira guerra mundial, investiu na incipiente industrialização brasileira. Foi responsável por 3 diferentes fábricas: duas de tecidos e uma de chapéus, que eram aparelhadas com máquinas e equipamentos modernos para à época e, além disso, empregavam mais de 2000 operários no processo de fabricação. Uma delas era a S.A. Cotonifício Paulista que mantinha, em suas áreas de fiação, tecelagem e tinturaria, com 400 teares e 18.000 fusos (que é utilizado num movimento circular para transformar a lã que vem do tear em fio).

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O que sobrou do edifício do Cotonifício Paulista, construído em 1921, localizado na Av. Celso Garcia, Belém. Foto: Hélio Bertolucci Jr.

Além das fábricas, o Comendador Scuracchio investiu em muitos imóveis comerciais que ficaram famosos por sua importância na sociedade da época como no seu valor histórico nos dias atuais. Entre eles está o Edifício do Clube Comercial, que foi inaugurado em 1930 e possuía várias lojas e escritórios, além de salões de baile. O autor do projeto era o italiano Felisberto Ranzini, principal projetista do escritório Ramos de Azevedo. e o prédio era situado no limite entre o então Parque do Anhangabaú e o chamado hoje de “centro velho”. Por um período, o edifício abrigou a Bolsa de Mercadorias de São Paulo. Foi derrubado no final dos anos 1960 para a construção do Edifício Grande São Paulo.

Clube Comercial - Série Avenida Paulista: da mansão dos Scuracchio ao Paulista 2028
O Clube Comercial, à esquerda, e o Palacete Prates, à direita em foto de 1930.

Além do Clube Comercial, outro importante empreendimento do Com. Scuracchio foi o conhecido Hotel Municipal, que fica localizado na Avenida São João esquina com a Conselheiro Crispiniano, e constitui uma das mais belas obras arquitetônicas do centro de São Paulo, com sua formosa construção – ainda hoje preservada (mas não conservada) – que representou a arquitetura francesa típica do século XIX na cidade. Atualmente, o edifício está fechado e ocupado comercialmente apenas em seu nível térreo.

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Hotel Municipal à esquerda, em operação em foto no ano 1950 de autoria de Antonio Aguilar, famoso fotógrafo e radialista.

O site São Paulo Antiga publicou algumas fotos antigas e atuais do Hotel Municipal, que podem ser vistas abaixo, e observou que na fachada do hotel, é possível notar um pequeno detalhe onde é mencionado o proprietário original do edifício: o Cotonifício Paulista. Vejam as fotos.

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Fotos de Douglas Nascimento / São Paulo Antiga.

E o palacete da Avenida Paulista, o motivo deste artigo? Vamos a ele! O projeto da mansão do Comendador Scuracchio também ficou a cargo de Felisberto Ranzini, que foi responsável pelo Clube Comercial.

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No site da Casa Ranzini, que era a residência do arquiteto, encontramos a seguinte alusão relativa ao palacete do comendador.

A casa (Ranzini) filia-se ao denominado “estilo florentino” – plasmado no Quatrocento e recolocado em voga na Itália da passagem dos séculos XIX / XX – temperado com as liberdades ecléticas então vigentes e praticado com destaque pelo arquiteto (…). Era um estilo particularmente apreciado por setores abastados da colônia italiana – saudosos da pátria e sempre dispostos a homenageá-la, de então: na avenida Paulista, “passarela” do ecletismo historicista desses tempos, tínhamos nessa linguagem arquitetônica a bela propriedade de João Batista Scuracchio.

Em sua vida pessoal, o Comendador ficou conhecido com um grande benemérito que ajudou em diversas ocasiões tanto a população paulistana como a italiana em diversas áreas como as instituições filantrópicas, esportivas e sociais. Foi um dos responsáveis pela edificação da Clínica Infantil Ipiranga. Se empenhou diretamente na ajuda na época da epidemia de gripe em 1918, tanto que em 1922 foi nomeado Cavalheiro da Coroa e, em 1928, recebeu a Comenda da Coroa Italiana.

Até ao morrer, a família e o Comendador tiveram pompas. Foram sepultados em um dos mais belos exemplares de arte tumular do Cemitério São Paulo, que conta com o último exemplar de escultura realizada por Victor Brecheret (Título da obra: Ave Maria – Quadra 27 – Terrenos 31,32 e 34).

Brecheret usou o estilo expressionista para esculpir os anjos do mausoléu, tendo atrás uma grande parede, com cerca de 3 metros de altura, construída com placas de mármore, onde estão as inscrições e o nome da família com uma coloração rósea. Nessa parede, atrás da cruz, um nicho representa um portal de passagem para o desconhecido do “outro lado” do umbral.

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No lugar do palacete da Paulista surgiu, em 1976, o Paulista 2028, um pequeno edifício na avenida, com 16 andares, que por anos esteve espremido entre outros grandes edifícios da Paulista. Os escritórios do Paulista 2028 têm área útil de 357 à 616m² e possuem 4 vagas de garagem.

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O edifício Paulista 2028 no início do projeto de Retrofit. Foto: Marcio Staffa

Até que em 2012 o prédio passou por uma reforma para atualização, o que hoje é conhecido por Retrofit. O processo consiste em renovar um edifício já existente, modernizando-o e implantando tecnologias mais atuais. É uma tendência urbana mundial aplicada em áreas ricas e adensadas que não possuem mais locais para o desenvolvimento de novos empreendimentos.
O retrofit do Paulista 2028 teve incorporação da Bncorp e Bueno Netto, com projeto arquitetônico e decoração de Athié Wohnrath.

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No período de lançamento a revista Época publicou uma extensa reportagem sobre o Retrofit no edifício. Destacamos alguns trechos interessantes:

Sobre a certificação de reforma sustentável LEED

A reforma do Paulista 2028 é um exemplo de retrofit sustentável, que o tornará mais eficiente e adequado às novas necessidades tecnológicas. Comparada ao dispendioso projeto original, a modernização será tão grande que os responsáveis candidataram o prédio para receber a certificação de reforma sustentável LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), da ONG Green Building Council (GBC).

Sobre o consumo de água

Para reduzir o consumo de água, estão previstos vasos sanitários de duplo acionamento, um botão para sólidos e outro com menos água para os líquidos, e torneiras com desligamento automático.

“O novo prédio deve gastar até 30% a menos de água”, diz Nelson Mazzeo, gerente de incorporação da Bncorp, responsável pela obra. Para completar, um telhado verde vai ajudar a reduzir a geração de calor.

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Peça em computação gráfica feita para a venda dos escritórios do Edifício Paulista 2028

E para finalizar o texto desta semana, um lindo vídeo realizado para a divulgação do novo prédio que mostra lindas imagens da Avenida Paulista. Vale conferir! Até a próxima.

 

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Luciana Cotrim
the authorLuciana Cotrim
Paulistana até a alma, nasceu no Hospital Matarazzo, no coração de São Paulo. Passou parte da vida entre as festas da igreja Nossa Senhora Achiropita, os desfiles da Escola de Samba Vai-Vai e as baladas da 13 de maio no bairro da Bela Vista, para os mais íntimos, o Bixiga. Estudou no Sumaré, trabalhou na Berrini e hoje mora em Moema. Gosta de explorar a história e atualidades de São Paulo e escreveu um livro chamado “Ponte Estaiada – construção de sentidos para São Paulo” resultado de seu mestrado em Comunicação e Semiótica na PUC. É consultora em planejamento de comunicação e professora de pós-graduação no Senac.

5 Comentários

  • Que me lembre, não sei se ainda há na Avenida Brasil uma casa com azulejos aplicados no beiral do telhado tal como nesta que se foi. A última vez que vi parecia até bem: paredes amarelas, portas e janelas de madeira em tom de verde e os azulejos com fundo branco e desenhos em carmim.

  • Olá, Luciana

    Li com interesse – e bastante atraso… – sua postagem sobre a mansão Scuracchio. Também sou um paulistano medular (do Brás). Escrevi o texto que você menciona sobre a Casa Ranzini. Em 2015, publiquei um despretensioso estudo sobre Felisberto e a corrente estilística a qual se filia as residências em questão e que talvez possa lhe interessar. Seu título é “Italiano e nosso: Felisberto Ranzini e o estilo florentino” (Editora Cultura Acadêmica, da Unesp). Nele eu comparo as duas casas e levanto a hipótese de que a Residência Scuracchio pode também ser de Ranzini – não encontrei documentação que pudesse comprovar isso categoricamente, para além desse indício de que o Clube Comercial, de propriedade do Comendador, é mesmo produto da prancheta de Ranzini. Aproveito para louvar essa série primorosa. Parabéns pela iniciativa e sensibilidade.

    Waldir

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