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Série Avenida Paulista: da mansão Matarazzo ao Cidade São Paulo – parte 2

Na semana passada apresentamos a primeira parte da história do casarão Matarazzo, que ficava na Avenida Paulista (você pode ler aqui). Nesta semana abordaremos a história a partir da década de 1940, quando o casarão passou pela reconstrução realizada por Francisco Matarazzo Jr, com um novo projeto arquitetônico, que permaneceu no local até sua demolição.

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Foi neste período, que a casa adquiriu ares de museu, com quadros de artistas clássicos europeus e pintores contemporâneos brasileiros expostos por todas as paredes da residência.

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Chiquinho Matarazzo Jr. posa em frente a estátuas chinesas. Foto: Dmitri Kessel, 1947.

A mansão foi palco de muitas comemorações: jantares, festa e celebrações sociais tiveram a casa como cenário fabuloso. Uma das maiores festas que ocorreu na cidade naquela época foi intitulada pelo jornalista Joel Silveira no artigo “A milésima segunda noite da avenida Paulista”, em 1945, comemoração que marcou o casamento de Filomena Matarazzo, a Filly, com o milionário carioca João Lage. A festa teve duração de três dias e três noites e todos os convidados saíram da casa, de 16 salas e 19 quartos, agraciados com canetas tinteiro banhadas a ouro.

A elegância desses eventos pode ser vislumbrada, na foto abaixo, de um jantar da família.

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Foto: Dmitri Kessel, 1947.

Vemos um jantar da família de Chiquinho Matarazzo Jr, em que os presentes são servidos por garçons com luvas. Reparem na grandiosidade do lustre acima da mesa de jantar.

Claro que família era alvo das grandes publicações e revista da época, como podemos ver na linda série de fotografias realizadas pela revista Life.

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Francisco Matarazzo Sobrinho, o Cicillo Matarazzo, sucedeu o tio: Francisco Matarazzo Jr e, como ele, era um grande anfitrião de jantares e festas. Uma outra grande festa, em 1973, aconteceu nas bodas de ouro do conde Chiquinho e de D. Mariângela, inclusive com apresentação do Royal Ballet de Londres.

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Ciccillo Matarazzo e Yolanda Penteado. Foto: Acervo Última Hora/FolhaPress

Cicillo era filho de Andrea Matarazzo um dos irmãos do conde Francesco Matarazzo. Casou-se em 1943, com Yolanda Penteado, que era grande incentivadora e  mecenas das artes plásticas. Além de empresário, Cicillo fundou, em 1948, o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) e em 1951 a Bienal Internacional de Arte de São Paulo, entidade que presidiu até a data de sua morte.

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A vinda da mais célebre obra do mais célebre pintor na mais célebre das bienais de São Paulo: Guernica, de Pablo Picasso, que esteve no Brasil durante a 2ª Bienal, em 1953. Na foto, Ciccillo Matarazzo responsável por trazer a obra, em destaque ao lado de Juscelino Kubitschek.

Com o amigo de infância e engenheiro Franco Zampari, fundou o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e foi também um dos fundadores dos estúdios da Companhia Cinematográfica Vera Cruz.

Além disso, Ciccillo presidiu a Comissão do IV Centenário da cidade de São Paulo. O local escolhido para sediar a maior festa e parte dos eventos foi o Ibirapuera, onde se planejava construir um grande parque, com edificações projetadas pelo arquiteto Oscar Niemeyer.

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Francisco Matarazzo Sobrinho apresenta maquete do Parque do Ibirapuera aos membros da Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo.

A casa dos Matarazzo continua ser um reduto de artistas e da alta sociedade paulistas nestes anos dourados. Helio Bertollucci Jr descreve que

“a fase aristocrática do terreno só iria diminuir a partir da década de 1980, após a morte do seu morador mais longevo, Francisco Matarazzo Sobrinho, em 1977.

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Logo após, a residência serviu de domicílio para Maria Pia Matarazzo, filha de Chiquinho e que havia assumido as empresas da família e sua mãe, a Condessa Mariângela, que viveu até os 100 anos de idade em 1996. A casa ficou habitada até 1989, quando a Condessa se mudaria para um apartamento junto com sua filha Maria Pia na região da Rua da Consolação”.

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Maria Pia em sua mesa de trabalho no escritório da Matarazzo na Rua Joli, no bairro do Brás. Década de 1980.

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A família denota uma bomba na casa, por conta da possibilidade de tombamento imediato.

Após uma batalha judicial, o casarão acabou demolido. A mansão que era situada numa área de 12 mil metros quadrados caiu, e o terreno foi comprado pela Cyrela e uma empresa do grupo Camargo Corrêa por 125 milhões de reais.

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No local funcionou um estacionamento, que existiu até 2011, em março deste ano foi dado o alvará para o início da construção do Shopping Cidade São Paulo.

No local do casarão foram construídos a Torre Matarazzo e o Shopping Cidade São Paulo. O centro comercial e o edifício, de uso misto, tiveram projeto do escritório aflalo/gasperini arquitetos. A construção foi realizada pela Método Engenharia e a incorporação é da Cyrela Commercial Properties (CCP).

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Foto: Staffa

Com várias faces, o empreendimento composto pelo shopping e pela torre somam 34 mil metros quadrados de área envidraçada. A Torre Matarazzo tem 50 mil m² de área construída, o edifício tem 13 andares com escritórios de 1.500 a 2.000 m².

O shopping, inaugurado em 30 de abril de 2015, tem 17.500 m² de área que abrigam 160 lojas e 6 salas de cinema, espalhadas em 5 pisos. O estacionamento oferece 1.557 vagas, além de 170 vagas de bicicletário. O investimento para a construção foi de 500 milhões de reais.

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Foto: aflalo/gasperini arquitetos
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Foto: aflalo/gasperini arquitetos
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Praça Matarazzo, ao lado do Shopping.

Uma praça pública que recebeu o nome de Praça Matarazzo, com  2 400 m² com espécies da Mata Atlântica e conservação de sessenta árvores nativas compõe o complexo, esta à disposição da população. Conhece? Já foi lá? Apesar da homenagem, o casarão ficou marcado e faz falta no local e na história de São Paulo.

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Luciana Cotrim
the authorLuciana Cotrim
Paulistana até a alma, nasceu no Hospital Matarazzo, no coração de São Paulo. Passou parte da vida entre as festas da igreja Nossa Senhora Achiropita, os desfiles da Escola de Samba Vai-Vai e as baladas da 13 de maio no bairro da Bela Vista, para os mais íntimos, o Bixiga. Estudou no Sumaré, trabalhou na Berrini e hoje mora em Moema. Gosta de explorar a história e atualidades de São Paulo e escreveu um livro chamado “Ponte Estaiada – construção de sentidos para São Paulo” resultado de seu mestrado em Comunicação e Semiótica na PUC. É consultora em planejamento de comunicação e professora de pós-graduação no Senac.

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