Série Avenida Paulista: a família Rocha Azevedo.

Série Avenida Paulista: a família Rocha Azevedo.

A Série Avenida Paulista desta semana reconstitui uma parte da história da família de um dos moradores da avenida: o Dr. Álvaro Gomes da Rocha Azevedo, que foi proprietário de uma casa que, por muitos anos, foi conhecida como a casa decorada no Natal pelo Banco Itau Personnalite.

A casa fica na esquina da Alameda Ministro Rocha Azevedo, que foi nomeada em homenagem ao Dr. Álvaro. O imóvel teve, ao menos, três proprietários incluindo o atual. Esta história foi contada recentemente em nossa série e, se quiser, você pode acessá-la neste link.

Hoje vamos nos aprofundar na história da família Rocha Azevedo. E isso só foi possível pela gentil colaboração de um descendente da família, o Sr. Roberto Rocha Azevedo, que dividiu conosco suas memórias e trechos de seu livro intitulado “São Paulo, como me lembro – memórias de um Álbum de Retratos”, publicado pela Cia de Autores.

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Roberto é neto de um irmão mais moço do Dr. Álvaro, que se chamava Heitor. Ambos, assim como seus irmãos e irmãs Arthur, Eurico, João, Eugênio, Marietta, Antonietta e Erycina, eram nascidos em Minas Gerais, filhos de João Francisco Gomes da Rocha Azevedo e Ignácia Júlia Ribeiro de Rezende da Rocha Azevedo, também mineiros: ela originária de Cataguazes e ele de Campanha.

João Francisco era filho de João Fernando Gomes da Rocha Azevedo Villas Boas e Antas, que veio de Portugal em um brigue (embarcação à vela) chamado “Mentor”, em 1920. Trata-se do avô o do pai do Dr. Álvaro Rocha Azevedo.

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Álvaro Gomes da Rocha Azevedo, o Ministro, publicada na edição de O MALHO de 04 de Agosto de 1923.

Na voz de Roberto, vamos conhecer um pouco da história da família e de suas memórias.

Sobre tio Álvaro, eu nem posso dizer que cheguei a conhecê-lo, pois quando faleceu eu tinha apenas 4/5 anos. Mas me lembro muito bem de Tia Cotinha e, de seus filhos – a Jacyra e o Alvrinho, como o chamávamos; já da Nair, eu não me lembro muito.

Alvrinho era advogado e uma pessoa muito formal, tanto que seu apelido na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco era “carretel”, porque estava sempre na linha. Contudo, me parecia que vivia sob a sombra de tio Álvaro, tanto assim que só se auto chamava de “Rocha Azevedo Filho”.

Candidatou-se a vereador na década de 50 pelo PRP, sem ser eleito, mas logrou mudar o nome das 2 Alamedas, Eugênio de Lima e Rocha Azevedo, para Joaquim Eugênio de Lima e Ministro Rocha Azevedo, para deixar bem claro quem era o homenageado, seu pai e não sua família……  

Tinha muito orgulho da família e de seu passado, e meu pai dizia que ele mantinha uma Secretária na Torre do Tombo, em Lisboa, para descobrir Reis e Santos na família, mas que só tinha encontrado Aventureiros e Prostitutas…….

Dos filhos de Tio Arthur, que não cheguei a conhecer, tínhamos mais contato com o Plínio, primo de meu pai e que morava perto de casa, na Rua Bento de Andrade, no Jardim Paulista. Suas duas filhas, Beatriz e Ana Maria, eram nossas companheiras de festinhas e bailes em nossa adolescência, mas também depois que crescemos não tive mais contato com eles.

Das irmãs de Vovô Heitor e de Tio Álvaro, meu contato maior era com Tia Marietta e pouco menos com Tia Erycina, ambas casadas com militares e vivendo no Rio de Janeiro. Já tia Antonietta, que ficou viúva muito cedo, mudou-se para Portugal e mantivemos contato com ela e a prima Sylvia durante muitos anos, até a década de 1980, depois do que perdemos os contatos.

Tia Marietta era casada com o Coronel Adalberto de Almeida, moravam na Rua Ramon Franco 55, na Urca. Um dos filhos, o Pedrinho (Pedro Geraldo de Almeida), foi ajudante de ordens do General Nelson de Mello quando do episódio do suicídio do Presidente Getúlio Vargas, chegou a General de Exército e foi chefe da Casa Militar do Presidente Jânio Quadros. Outro filho, Heitor, era médico e se mudou para Santo Antonio da Patrulha, no Rio Grande do Sul. 

Dos filhos de Tia Erycina, o Arthur foi Governador biônico do Amapá durante o Governo Militar, e o Geraldo, a quem papai chamava de “alemão”, foi Comandante do 1o. Distrito Naval no Rio de Janeiro e depois Ministro da Marinha.

Meu avô, Heitor, mudou-se ainda jovem para o Rio de Janeiro, onde conseguiu um emprego de “cometa” na Casa João Reynaldo, uma das grandes atacadistas daquela época da virada do século 19. Os cometas eram os caixeiros-viajantes que saíam do Rio para o interior de Minas Gerais vendendo os produtos que, até então, eram encontrados apenas na grande Metrópole.

Eles carregavam suas tralhas em um trem da Central até Pindamonhangaba. Nessa pequena vila, pegavam suas tropas de burros já devidamente carregadas e se embrenhavam pelo Sul de Minas até que os estoques se esgotavam e recomeçavam tudo de novo, sempre na mesma rotina. Meu avô contava que, por onde eles passavam, os pais fechavam as janelas de suas casas e prendiam as suas filhas casadoiras, advertindo-as com seus conselhos familiares: COM O COMETA, NÃO SE META…

Seu irmão mais velho, Álvaro (o Ministro Rocha Azevedo), havia se mudado para São Paulo, estabelecendo-se como advogado em 1893. Casou-se com tia Cotinha, que era filha do Engº. Joaquim Eugênio de Lima, tendo sido prefeito da Capital e ministro do Tribunal de Contas, além de vereador por algumas legislaturas.

Já estabelecido em São Paulo, chamou meu avô Heitor para lá, acompanhando outros irmãos que também passaram a residir em São Paulo (tios Arthur, Eurico, João e Eugênio).

Em fevereiro de 1909, meu avô casou-se com Maria Guerra e foi morar na Chácara do Bexiga, de propriedade de seu sogro, João Marques Guerra, tornando-se sócio do mesmo na sua firma de secos e molhados finos.  

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Roberto, com seus avós, Heitor e Maria, nas férias de 1945.

A chácara havia sido adquirida por João Marques Guerra em 1902. Após sua morte, em 1919, e de sua esposa D. Rosalina no ano seguinte, a Chácara foi primeiro alugada, em 1921, e posteriormente vendida, em 1925, para Sebastiana de Mello Freire (conhecida como Dona Yayá), o que lhe deu o nome de “Casa da D. Yayá”, que hoje faz do Patrimônio Cultural da USP.

Se quiser conhecer um mais, veja o vídeo: Memórias do concreto | Casa de Dona Yayá abaixo

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A chácara tinha um terreno de 33 mil m2 e uma casa com 16 cômodos com uma “fachada neoclássica, bem ao gosto do proprietário anterior do imóvel, o então relativamente próspero comerciante de secos e molhados João Marques Guerra”. Hoje em dia, após inúmeras desapropriações, inclusive para a construção do trecho da Radial Leste, o terreno soma apenas cerca de 2.600 m2. Ainda podem ser vistos na casa alguns azulejos e peças com as iniciais de meu bisavô JMG.

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Festa de 6 anos de meu pai, Heitor Rocha Azevedo Junior, na chácara, em 1917.

Quando saiu da Chácara do Bexiga, meu avô Heitor foi morar por um período em uma casa alugada na Avenida Paulista, enquanto construía sua nova residência situada na Rua Argentina, reformada pelo Engo. Oswaldo Arthur Bratke, entre 1938 e 1939.

Abaixo uma foto rara, tirada no começo de 1962: 4 gerações, com meu avô Heitor, meu pai Heitor Junior e seu primeiro neto, filho de minha irmã Elza.

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Como contamos anteriormente sobre a mansão da Avenida Paulista do Dr. Álvaro Rocha Azevedo, sabemos que foi doada pelo seu sogro Joaquim Eugenio de Lima, primeiro proprietário do local e responsável pelo projeto, execução e inauguração da Avenida Paulista.

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Joaquim Eugenio de Lima, o idealizador e construtor da Avenida Paulista.

O projeto da residência que ficava no número 58 da Avenida Paulista, data de 1905, construída por João Gullo, estava em nome do irmão do Dr. Álvaro, o Arthur Gomes Rocha Azevedo. João Gullo, que muitas vezes trabalhava diretamente com Ramos de Azevedo, foi responsável por construir muitas residências e obras públicas do começo do século passado.

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A família Rocha Azevedo era proprietária de toda a área próxima à casa, como podemos ver no anúncio de aluguel de duas casas adjacentes. O endereço para pegar chaves e tratar do aluguel, era o do Dr. Álvaro. Provavelmente, essas casas também foram construídas por João Gullo.  Nessas 2 casas mais tarde moraram Alvrinho e Jacyra, filhos do Dr. Álvaro Rocha Azevedo.

Ampliamos as informações da primeira família que morou na Avenida Paulista, 58. Quem sabe, ainda consigamos histórias dos Hannud, que compraram a casa. Continuamos a buscar…

 

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Paulistana até a alma, nasceu no Hospital Matarazzo, no coração de São Paulo. Passou parte da vida entre as festas da igreja Nossa Senhora Achiropita, os desfiles da Escola de Samba Vai-Vai e as baladas da 13 de maio no bairro da Bela Vista, para os mais íntimos, o Bixiga. Estudou no Sumaré, trabalhou na Berrini e hoje mora em Moema. Gosta de explorar a história e atualidades de São Paulo e escreveu um livro chamado “Ponte Estaiada – construção de sentidos para São Paulo” resultado de seu mestrado em Comunicação e Semiótica na PUC. É consultora em planejamento de comunicação e professora de pós-graduação no Senac.

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