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Série Avenida Paulista: do ginásio Anglo-Latino ao Edifício Safra

A Série Avenida Paulista vai contar a história do Gymnasio Anglo Latino, que ficava localizado em uma das esquinas mais importantes da avenida, a esquina com a Rua Augusta.

A história começa ainda no século 19, precisamente em 1893, quando o professor português Antônio Maria Guerreiro veio para o Brasil. O professor mantinha em Portugal uma escola, qie trouxe para o pais. Fundou em São Paulo a Escola Guerreiro, que oferecia vários cursos e também a educação formal, com internato, semi e externato, localizada na Rua Pirapitinguy, onde permanece até meados da década de 1910.

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Sobre o prédio da Avenida Paulista, que ficava no número 27, a primeira informação que temos é uma planta da mudança da fachada do palacete, que data de abril de 1909 e está em nome de João Bricola. Talvez este tenha sido o primeiro proprietário.

Após a Primeira Guerra Mundial, em 1920, o Professor Guerreiro renomeou a instituição com o nome“ Ginásio Anglo-Latino”, uma homenagem aos aliados que venceram a guerra. Muito provavelmente foi um pouco antes deste ano que a Escola ocupou o palacete localizado na Avenida Paulista, número 27.

Um anúncio de janeiro de 1920, mostra a belíssima construção, já com a fachada da planta acima, e frondosos jardins ao redor. O texto publicado refere-se ao lugar desta forma, com o português da época: “Um aspecto do elegante palacete em que funcciona o acreditado Gymnasio Anglo-Latino (Antiga Escola Guerreiro) amplamente installado, com vasto jardim ao redor, e provido de todos os requisitos de hygiene, educação e instrucção, à Avenida Paulista, n. 27”.

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Em outro anúncio, de 1919, em que vemos na foto alunos, professores e o diretor, o texto afirma que é uma “installação no melhor bairro de São Paulo”.

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Não sabemos até quando o ginásio permaneceu na Avenida Paulista, mas sabemos que deu origem ao que hoje conhecemos o cursinho Anglo-Latino. O site da escola de cursos preparatórios pré-vestibular publicou em seu site que:

“Logo após a Revolução de 1932, Celestino Rodrigues, jovem estudante de Engenharia que havia ingressado em 1º lugar na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, e Leo Bonfim, professor da Poli que preparava candidatos para o vestibular da escola, associaram-se e instalaram, no prédio do ginásio, um curso preparatório que se denominou Curso Anglo-Latino.

No final dos anos 30, com o falecimento do Prof. Guerreiro, os herdeiros venderam as instalações para Leo, Celestino e outros professores, que expandiram o ginásio e abriram o Colégio Anglo-Latino. Na década seguinte, o Anglo-Latino firmou-se como o melhor colégio particular de São Paulo e o melhor curso preparatório para Exatas”.

Neste período, conforme mostra a imagem abaixo, a escola já tinha mudado para a Liberdade, na Rua São Joaquim 580 e, como vemos, tinha os prédios do ginásio e o colégio.

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Em 1950, Leo e Celestino decidiram fechar o ginásio e o colégio, mas, como o site conta: “O Prof. Simão Faiguenboim, que dirigia o Curso Anglo desde o término da Segunda Guerra Mundial (1947), (…) para prosseguirem com as atividades nas instalações do Colégio São Paulo de Piratininga, na Rua Tamandaré, 596”, onde encontra-se até hoje.

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No prédio da Rua São Joaquim, depois funcionou, de 1.951 a 1.970, a Escola de Polícia de São Paulo, sendo substituída pela atual ACADEPOL – Academia de Polícia, na Cidade Universitária. Abaixo, vemos uma página da memória da Policia Civil de São Paulo com o desenho do edifício.

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Voltando para a Avenida Paulista, naquele mesmo terreno, nas décadas de 1950/ 1960 funcionou um outro colégio chamado Colégio Pais Leme, cujo curso científico foi dirigido por Nicolau Marmo, na década de 1960.

Também um colégio renomado onde estudou várias pessoas conhecidas, como o arquiteto Paulo Mendes da Rocha. Miguel Antonio Della Rosa escreveu em um site algumas de suas lembranças do colégio. Ele disse:

“Lembro-me do Colégio Pais Leme dirigido pela família Rossi: Sr. João, Antonio Oswaldo, Sr. Gonçalves, Sr. Humberto que cuidava dos alunos semi-internos com um rigor digno de um quartel.

O nosso grêmio chamava-se Grêmio Euclides da Cunha que patrocinava anualmente a eleição para a aluna mais bonita, o professor mais simpático etc. Eram vendidos os votos ao Grêmio para financiar bailinhos e outras atividades pertinentes. Era uma época divertida, o Colégio ficava muito agitado com a campanha política interna para eleger os candidatos.

Existia uma grande rivalidade entre os alunos do Dante Alighieri e os do Pais Leme; os meninos que queriam namorar com meninas do Dante e vice-versa causavam várias brigas que se situavam no Parque Trianon, local agradável na época onde se passeava e namorava. As brigas eram constantes.

Outra rivalidade era a Esportiva com o Colégio São Luiz: havia brigas que até os padres do São Luiz se envolviam, mas eram brigas só de socos e pontapés. A TV Record patrocinava na época o campeonato de futebol entre Colégios e os maiores competidores, salvo lapso meu, eram São Luiz, Pais Leme, Rio Branco, Mackenzie etc. Alguns desfiles em feriados pátrios eram na Avenida Paulista, desfile de fanfarras dos colégios e também concursos de melhores fanfarras também patrocinadas pela TV Record na época.

Os bondes que percorriam a Avenida Paulista desciam a Rua Pamplona tendo o seu ponto final à Rua Veneza. O romantismo da frequência dos alunos do Paes Leme, Liceu Eduardo Prado, mesclado com as alunas de uma escola de Freiras na Rua Pamplona com uniforme de saias xadrezas, a amizade com os motorneiros (que eram os que dirigiam os bondes), as visitas ao restaurante Camelo, que na época vendia esfihas e kibes, caminhadas até o lago do Ibirapuera, inaugurado em 1954 onde alugam pequenas lanchas para navegar, onde no centro do lago havia um restaurante. Saudades, saudades, saudades.”

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Colégio Pais Leme. Foto: Nicolau Marmo

Recebemos da querida Maria Lourdes Pereira, lindas imagens da fachada do Colégio Pais Lene, que foram publicadas pela Revista Acrópole em 1960. Nas fotos, podemos ver uma projeto arquitetônico com linhas retas, simétricas e sequenciais, com estilo mais moderno e típico da época. Um belo projeto arquitetônico.

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Depois do colégio, no tereno, também instalou-se um prédio que, atualmente, é o edifício do Banco Safra, que o inaugurou em 1988. Hoje ele está localizado na Avenida Paulista, 2100. Não sabemos dizer o que havia lá no período entre o Colégio Pais Leme e o Edifício Safra.

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Com padrão moderno e luxuoso, o edifício Safra possui um total de 24 andares e 125 vagas de estacionamento. O prédio, que já abrigou um centro cultural da instituição bancária, apresenta bela arquitetura de fachada imponente, com obras de arte no hall de entrada.

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Imagens do Projeto em computação gráfica. Fonte: 3D Creative Studio

Chama a atenção o chão de granito em cinco diferentes cores, enormes pilares que dão sustentação e força ao ambiente. Ao fundo do ambiente, um lindo painel de Burle Marx, traz um aspecto mais orgânico ao traço reto que que predomina em todo o espaço.

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Foto: escritório Burle Marx

Ainda, na parte traseira do prédio, no que é a laje superior do andar térreo do Banco Safra, um belo jardim que também contou com projeto paisagístico de Burle Marx.

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Foto Juliana Monferdini

Tudo no edifício é muito sofisticado é luxuoso, desde o logotipo da entrada à louça utilizada pala instituição financeira.

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À esquerda, foto de Miguel J., e à direita, de Paula M.

Mesmo assim, com toda a imponência que o local impõe, inclusive com seus executivos super bem trajados. Mesmo assim, algum dia… eles entram em greve e ocupam a calçada à frente do majestoso prédio em 2013.

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Foto: uol

Até o próximo domingo com mais uma história da Avenida Paulista.

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Luciana Cotrim
the authorLuciana Cotrim
Paulistana até a alma, nasceu no Hospital Matarazzo, no coração de São Paulo. Passou parte da vida entre as festas da igreja Nossa Senhora Achiropita, os desfiles da Escola de Samba Vai-Vai e as baladas da 13 de maio no bairro da Bela Vista, para os mais íntimos, o Bixiga. Estudou no Sumaré, trabalhou na Berrini e hoje mora em Moema. Gosta de explorar a história e atualidades de São Paulo e escreveu um livro chamado “Ponte Estaiada – construção de sentidos para São Paulo” resultado de seu mestrado em Comunicação e Semiótica na PUC. É consultora em planejamento de comunicação e professora de pós-graduação no Senac.

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