Série Avenida Paulista: lembranças da casa de Jayme Loureiro – parte II

Série Avenida Paulista: lembranças da casa de Jayme Loureiro – parte II

Nesta semana a Série Avenida Paulista continua a apresentar a série que compõe as lembranças da poetisa Flora Figueiredo, neta de Jayme Loureiro e José Borges de Figueiredo, a quem agradecemos pela contribuição nesta coluna.

Na semana passada, Flora contou sobre a casa de seu avô Jayme Loureiro, que ficava no antigo número 89A da avenida Paulista, esquina com a Alameda Campinas. Você pode ler a publicação clicando aqui.

No texto de hoje, ela lembra com carinho de sua avó, Ângela, esposa de Jayme Loureiro, que viveu na casa até o fim da vida.  Convidamos todos a partilhar das memórias de Flora.

“Com o passar do tempo, comecei a entender e a admirar, cada vez mais, minha Giloquinha.

Seu passado tinha a tristeza profunda da morte do marido e de dois filhos. Lúcia faleceu com 18 anos e Jairo com 24. Viúva precocemente, vovó foi buscar forças na fé e nos outros três filhos: Jayme Filho (Jayminho), Maria Flora e José Eduardo.

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Minha avó, Ângela, carinhosamente chamada de Giloca, na escada da casa da Avenida Paulista.

Não conheci meu avô. Por decisão dos pais, ele veio de Portugal, ainda menino, acompanhado de um irmão igualmente jovem, com pouco dinheiro e pouca instrução.

Queriam que tivesse melhores chances do que poderia lhe oferecer a pequena cidade em que nascera, na região da Beira.

Começou a vender tecidos pelo interior de São Paulo. Vovó contava que o conhecera em Tietê, sua cidade natal, onde ele chegara com fardos de tecidos carregados em lombo de burro e olhos azuis irresistíveis.

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Meu avô, Jayme Loureiro, no centro, de terno claro e gravata listrada. Fotografia realizada em frente à Santa Casa.

Tenacidade, honestidade, competência, espírito empreendedor, fizeram de vovô Jayme um comerciante de sucesso, respeitado pela conduta e pela benemerência com que colaborava com diversas entidades, como a Santa Casa e a Beneficência Portuguesa.

Ele é o grande protagonista deste relato e a quem devemos o princípio de toda nossa história familiar.

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Da esquerda para a direta: Jayme filho, Jairo, Lúcia, Maria Flora.

Tampouco conheci os dois tios que sorriam jovens no porta-retratos. Neles estava a razão de algumas salas só se abrirem para limpeza. Elas guardavam silêncios doloridos na coleção de xícaras de porcelana, no piano fechado que Lúcia tocara um dia, nas pinturas de Antonio Rocco que retratavam cada filho, nas paredes dessa sala de saudades.

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Maria Flora, minha mãe, na obra de Antonio Rocco.

No entanto, apesar dessa surra avassaladora que a vida lhe dera, jamais vi vovó se lamuriar ou falar da dor que percebíamos no fundo de seus olhos claros.

Em um recorte de jornal, encontrado na caixa de lembranças, um poema de Lúcia, poetisa promissora para sua pouca idade e que foi publicado na Suíça, onde ela lutava contra a tuberculose:

“Rosas vermelhas, escuras,

parecem contar tortura, tristeza, desilusão.

São como sangue correndo,

como se eu estivesse vendo

o meu próprio coração”.

 

Mesmo dilacerada pelas perdas, minha avó sempre teve um sorriso e uma delicadeza a quem quer que chegasse.

Assim, ela aprendeu a driblar a angústia e as recordações.  Seguia adiante, a tricotar a vida com fios de emoção.

Com a decoração nos moldes franceses, típicos da época, os quadros de autores europeus e a vivacidade de vovó, a casa da Avenida Paulista transmitia movimento e continuidade.

O entra e sai de amigos e parentes garantia o fluxo da correnteza sobre pisos de mármore.

Nas reuniões, mamãe era sempre o centro das atenções. Alegre, afetiva, falante, ela sempre sabia a última piada e o mais recente sucesso musical, que interpretava ao violão. Era também comum ouvi-la declamar poemas de seus autores prediletos. Foi, certamente, o que influenciou meu caminho pela Literatura e sobretudo pela Poesia.

Esse temperamento exuberante deu à minha mãe o curioso apelido de “ Florinha Champagne”.

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Jayme Loureiro Filho, o primeiro filho de meus avós.

Jayminho, o filho mais velho, era o eterno conselheiro, cujas opiniões eram acatadas graças à sua retidão e bom senso. Advogado, casado com Wonia, filha do jurista Waldemar Martins Ferreira, trabalhou com o sogro mas passou a conduzir as atividades comerciais do pai, quando este adoeceu. Foi também presidente do Banco Comercial do Estado de São Paulo e da Sociedade Hípica Paulista, por vários anos. Em sua gestão, construiu o primeiro picadeiro coberto da América do Sul, que tem seu nome.  Teve os filhos Jayme (Jimmy, falecido) Lúcia Maria e Jairo Eduardo.

Um dos ambientes da casa conservou intacto os dias de festa e os brindes das taças de cristal: a sala de jantar.

Em todo Natal, nos reuníamos em torno à mesa, com os serviços de pratos, copos, talheres e travessas destinados às grandes comemorações. Era também a vez da toalha de renda e dos castiçais.

Todo o cardápio era preparado em casa e começava com dias de antecedência pelas mãos de Fortunata, mestra em doces e salgados, que dominava a arte da cozinha com competência e mau humor.

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Família Loureiro reunida na casa da Avenida Paulista. Da esquerda para a direita: Vovó Ângela Loureiro, Dra. Casimira Loureiro, irmã de Jayme. Sentado, o esposo de Dra. Casimira. Em pé, junto aos filhos, Jayme Loureiro. Falta sempre o filho mais novo, José Eduardo, que nasceu muitos anos depois.

A casa reluzia nesse dia, mas, para mim, havia um senão. Era a mesa separada para as crianças. Nela, ficávamos meu irmão, meu primo Jairo e eu, os mais novos da família, até então.

Nós nos deliciávamos com os quitutes, mas nossa atenção ficava na mesa grande.

Depois da entrada, geralmente um creme de aspargos, chegava o peru com grande aparato. Criado no galinheiro do quintal, ele vinha com os acompanhamentos e alegorias que a solenidade pedia.

O pudim de castanhas fechava o acontecimento, com exclamações e aplausos. Era quando Fortunata vinha à sala e exibia seu sorriso anual.

Como contraponto a essa alegria familiar, a sexta-feira santa obrigava silêncio e jejum. Com receio que me deixassem sem comer nesse dia, eu começava a esconder bolachas Maria, semanas antes da Paixão.

A casa permanecia sombria e sisuda e não se podia ouvir rádio, nem mesmo música.

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Eu no meu velocípede, Celso, meu irmão, e o cachorro Jack.

Nesses dias, só meu velocípede falava. Com o chiado de suas rodinhas, ele me confidenciava que tinha medo das lamúrias da procissão que saía da Igreja Imaculada Conceição, na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio. Por muitos anos, tive problemas com tudo que era roxo.

José Eduardo, o filho mais novo, nasceu em 1927, com grande diferença dos irmãos, o que explica sua ausência nas fotos mais antigas.

Como sempre acontece com os caçulas de famílias numerosas, ele era cuidado por todos.

De personalidade forte e irreverente, tio José foi um bálsamo nos episódios trágicos que o destino impusera à família.

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José Eduardo Loureiro, o filho caçula de meus avós.

Quando nasci, ele prestava vestibular e sua carreira de advogado foi pautada por brilhantismo e integridade. Fez uma gestão memorável como presidente da OAB de São Paulo.

Já afeita aos livros, sua biblioteca me extasiava. Ela cobria as paredes de uma das grandes salas da mansão.

Eu era a sobrinha mais nova e recebia dele atenções e ensinamentos.

Certo dia, descobri que uma das quatro janelinhas do sótão que se via da fachada da casa, correspondia ao que havia sido seu quarto de brinquedos.

Lá, permaneciam os soldadinhos de chumbo que resistiram com bravura aos petardos dos anos e o trem elétrico, de origem alemã, que adormecera nos trilhos do tempo.

Raramente, vovó subia a esse terceiro andar e quando isso acontecia, ela precisava usar um elevador minúsculo, de porta pantográfica, que parava com um gemido e um solavanco.

Apegado à mãe, José Eduardo continuou a morar com ela, mesmo depois de casado. Nessa casa nasceram os quatro primeiros filhos, dos sete que ele teve com Ines Loureiro: José Eduardo, Ângela Maria, Francisco Eduardo, Jayme Eduardo, Ines Rosa Bianca, Leopoldo Eduardo, João Eduardo.

A filha Ângela, uma dessas fadas que passam rapidamente para deixar sua luz no mundo, faleceu aos 25 anos. Tristeza! Tristeza!

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O casamento de José Eduardo e Ines, em junho de 1955

Como morássemos muito perto, na Alameda Santos, mamãe e eu íamos visitar vovó todas as manhãs.

Já adolescente, eu me encantava com o cheirinho de lavanda dos bebês que, de repente, transformara a séria disciplina da casa.

Carrinhos, bolas e bonecas substituíam agora, no jardim, meu velocípede cansado.

Quando minha tia engravidou pela quinta vez, tio José decidiu se mudar para não sobrecarregar demais a mãe, já idosa.

Essa separação foi traumática o bastante para que eu nunca mais a esquecesse.

No entanto, aos poucos, vovó se adaptou à nova situação e retomou o ritmo dos dias.

Algum tempo depois, novas tristezas: a terrível perda de mais dois filhos.

Jayminho faleceu em 1969, em pleno Dia das Mães, e minha mãe, Maria Flora, em 1971.

Essas duas mortes levaram vovó ao seu limite.

Ela passou a se vestir com cores escuras, pouco falava e até seu inseparável tricô ficou esquecido.

Sua grande companheira nessa fase foi a enfermeira polonesa Edwiges, sóbria e atuante, que já cuidava de vovó havia algum tempo. Um ombro encolhido e de movimentos limitados denunciava a retirada de um pulmão, quando jovem. Essa dificuldade não diminuiu em nada sua energia e o carinho que dedicava à toda a família.

Edwiges foi meu amparo quando meus filhos nasceram. Como eu já não tinha mãe, ela assumia o posto e dava um jeito de entrar na sala de parto. Era sempre a primeira a segurar os bebês, com a ternura de um anjo.

As inúmeras visitas à minha avó continuaram a se suceder, mas ela já não sorria mais e olhava as tardes pela janela de seu quarto, como a se despedir do mundo.

A velha casa da Avenida Paulista começou a silenciar.

Onde outrora houvera brilho, pousara o lamento de um drama cruel. A querida senhora do topetinho prateado perdera quatro de seus cinco filhos!

Em 1975, a última luz se apagou.

Na mansão vazia, a quietude dos encerramentos.

No jardim florido, um velocípede vestido de musgo e sonho rangeu suas rodinhas gastas pela última vez.

Hoje, ele descansa, estacionado nas dobraduras da saudade.

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Meus filhos, Fernando e Frederico, 1976

Testemunha do desenrolar do novelo da vida, ensinei aos meus filhos que velocípedes falam. Basta dar a eles a chance de desbravar caminhos e abraçar o vento.”

A linda menininha que vimos no velocípede transformou-se na Flora, poetisa sensível, que gentilmente escreveu este texto tocante sobre sua avó Giloca e sua infância na Avenida Paulista. Quem quiser conhecer seus livros de poesia, acesse clicando aqui

No próximo domingo, acompanhe mais um texto das lembranças de Flora na Série Avenida Paulista.

 

Foto da capa: Benedito Lima de Toledo – Publicada no Álbum Iconográfico da Avenida Paulista.

Demais fotos: acervo familiar.

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Paulistana até a alma, nasceu no Hospital Matarazzo, no coração de São Paulo. Passou parte da vida entre as festas da igreja Nossa Senhora Achiropita, os desfiles da Escola de Samba Vai-Vai e as baladas da 13 de maio no bairro da Bela Vista, para os mais íntimos, o Bixiga. Estudou no Sumaré, trabalhou na Berrini e hoje mora em Moema. Gosta de explorar a história e atualidades de São Paulo e escreveu um livro chamado “Ponte Estaiada – construção de sentidos para São Paulo” resultado de seu mestrado em Comunicação e Semiótica na PUC. É consultora em planejamento de comunicação e professora de pós-graduação no Senac.

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