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Série Avenida Paulista: a mansão e o edifício Eloy Chaves

A Série Avenida Paulista desta semana conta a história da casa e do edifício Dr. Eloy Chaves. A grande surpresa é que conseguimos publicar uma fotografia inédita deste casarão da Avenida Paulista, que foi propriedade do Dr. Eloy Chaves.  O resgate da memória fotográfica da mansão só foi possível graças à gentileza da Fundação Antonio-Antonieta Cintra Gordinho, a qual agradecemos pelo atendimento de nossa solicitação. Um obrigada especial à Patrícia, nossa interlocutora na Fundação.

Casa Eloy Chaves Paulista 500x364 - Série Avenida Paulista: a mansão e o edifício Eloy Chaves

Vamos a história!

Eloy de Miranda Chaves nasceu em Pindamonhangaba, em 27 de dezembro de 1875. Era filho do Sr. José Guilherme de Miranda Chaves e de D. Cândida Marcondes de Miranda Chaves. Diplomou-se em Direito em 1896 pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e, aos 20 anos, tornou-se Promotor Público na cidade de São Roque. Logo depois, mudou-se para Jundiaí e elegeu-se vereador. Mais tarde, tornou-se Deputado Federal e, entre 1913 a 1918, foi Secretário de Estado dos Negócios da Justiça e Segurança Pública, nos governos do Conselheiro Rodrigues Alves e de Altino Arantes.

Membros do Governo 1 de maio de 1916.  500x384 - Série Avenida Paulista: a mansão e o edifício Eloy Chaves
Membros do Governo, 1° de maio de 1916. Sentados, da esquerda para direita: Oscar Rodrigues Alves, secretário do Interior; Cândido Motta, secretário da Agricultura; Altino Arantes, presidente do Estado; Cândido Rodrigues, vice-presidente; Cardoso Almeida, secretário da Fazenda; Eloy de Miranda Chaves, secretário da Justiça.

Eloy Chaves foi um homem corajoso e de alto espírito empreendedor, figura importante em nosso Estado, com atuação decisiva para o progresso de São Paulo. Além da política, atuou nos mais diversos segmentos do mercado. No setor elétrica, sua atuação começou em 1902, quando participou da organização da Empresa Elétrica de Jundiaí. Em maio de 1912 adquiriu, com outros sócios, a Central Elétrica Rio Claro, transformada na maior companhia de eletricidade de capital nacional. Em 1944 fundou a Empresa Elétrica de Itapura, e construiu a usina Salto do Itapura, que beneficiou extensa região de São Paulo e de Mato Grosso.

Com mais de 56 anos de sua vida dedicados ao setor de eletricidade, o Dr. Eloy Chaves foi, também, agricultor e pecuarista e um dos grandes incentivadores da indústria de cerâmica em São Paulo, tendo fundado a Companhia Cerâmica Jundiaiense. Em outros segmentos industriais, ainda em 1912, construiu em associação com o empresário português Antônio Cintra Gordinho e o engenheiro alemão Hermman Braune  a Cia. Ermida de Papel e Celulose também em Jundiaí.

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Em 1980, a ABCE – Associação Brasileira de Companhias de Energia Elétrica criou o Prêmio Eloy Chaves, uma medalha cunhada com o seu rosto, para premiar as empresas de energia elétrica de todo o Brasil, que se destacam pela prevenção de acidentes de trabalho. Foi devido a sua valorização dada ao trabalhador brasileiro, que seu nome foi escolhido para denominar a comenda. O político e empresário do setor elétrico foi um pioneiro da seguridade social devido a chamada Lei Eloy Chaves, como ficou conhecida, que favoreceu os trabalhadores da malha ferroviária paulista e foi a base do Instituto Nacional de Previdência Social INPS – Instituto Nacional de Previdência Social.

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Este foi um de seus feitos, talvez o que tenha tido o maior efeito social, e tornado o Dr. Eloy Chaves muito conhecido e perpetuado. O motivo foi o pioneirismo na edição de leis que garantiram a aposentadoria aos trabalhadores brasileiros. A história conta que, em 1921, viajava de trem na antiga Estrada de Ferro Sorocabana, e ouviu dos ferroviários que, mesmo quando atingiam uma idade avançada, precisavam continuar trabalhando em razão da necessidade premente de sustentar a família, inclusive aqueles que exerciam atividades mais desgastantes, como foguistas e maquinistas.

Após este evento, o Dr. Eloy Chaves procurou os dirigentes da Companhia Paulista e discutiu com eles o assunto. Tempos depois, em sua fazenda Ermida em Jundiaí, onde também tinha uma fábrica de porcelana, concebeu e escreveu o projeto de lei que apresentou à Câmara dos Deputados em 1921, criando “em cada uma das empresas de Estradas de Ferro existentes no país uma Caixa de Aposentadoria e Pensões – a primeira CAP do Brasil – para os respectivos empregados”, que virou lei em 24 de janeiro de 1923, dia que oficialmente comemora-se o Dia do Aposentado.

Na agricultura, O Dr, Eloy Chaves foi um dos maiores produtores de café brasileiro, manteve plantações em grandes fazendas do interior paulista, destacando-se a Fazenda Ermida. Além do café, eram notórias as vastas regiões de plantio de eucalipto, cana-de-açúcar e laranja mantidas por ele e sua família em todo o Estado de São Paulo.

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Sede da Fazenda Ermida – Fundação Antonio Antonieta Cintra Gordinho -FAACG. Foto: Emerson Rossi

A bela Fazenda Ermida está localizada ao pé da Serra do Japi, em uma área de preservação ambiental da Mata Atlântica. A casa-sede, construída por volta de 1860, abriga o Centro Cultural  da Fundação Antonio Antonieta Cintra Gordinho -FAACG e o  Museu Eloy Chaves, com possui um extenso acervo cultural representativo que remonta ao século XVII.

Além de todas essas iniciativas empresariais, Eloy Chaves atuou no ramo financeiro, tendo sido em 1889 um dos fundadores e principal acionista do Banco Comind – Banco do Comércio e Indústria, que se tornou, na primeira metade do século XX, a maior instituição financeira privada do país e maior operadora nacional no comércio internacional de café.

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Dr Eloy Chaves em sala da Fazenda Ermida
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Sentados, ao centro, o arcebispo D. Duarte, Dona Almerinda e o Dr. Eloy Chaves. Antonieta, em pé, atrás do pai e Vail atrás da mãe.

Na vida pessoal, O Dr, Eloy Chaves casou-se com Almerinda Pereira Chaves com quem teve dois filhos, Vail Chaves, que foi casado com Isabel Chaves e Antonieta Chaves Cintra Gordinho, que se casou com Antonio Cintra Gordinho, uma personalidade importante nos círculos políticos e administrativos do Estado de São Paulo, tendo sido Secretário da Fazenda.

Casa Eloy Chaves Paulista Copia Copia 500x394 - Série Avenida Paulista: a mansão e o edifício Eloy Chaves

Mas voltemos ao nosso tema central: sobre a casa da Avenida Paulista, em que o Dr. Eloy morou, temos muito poucas informações. Ela era localizada na Paulista, bem próxima à Rua da Consolação. Sua arquitetura era de estilo mais próximo ao moderno, com linha mais retas, como alguns dos casarões da época. O mais importante e inédito é que, com a fotografia enviada pela Fundação Antonio Antonieta Cintra Gordinho, pudemos publicar mais esta história e contribuir com o resgate da memória arquitetônica da Avenida Paulista do início do século passado.

Na publicação Fazenda Ermida: um exemplar da arquitetura do período do café em Jundiaí São Paulo, de autoria da Dra. Maria Luiza Zanatta de Souza, está descrito um detalhe que remete à casa da Avenida Paulista.

   A porta de entrada (da casa da fazenda Ermida), em madeira almofadada, com detalhes em ferragens e as escadas que dão acesso ao segundo pavimento, ao que tudo consta vieram da antiga residência do Dr. Eloy na Avenida Paulista em São Paulo.

porta da casa - Série Avenida Paulista: a mansão e o edifício Eloy Chaves

 No mesmo trabalho, lemos ainda que em entrevista com a Sra. Irene Ferreira Chaves foi mencionada a paixão da Sr. Almerinda Mendes Pereira Chaves por plantas e o fato do Dr. Eloy ter comprado uma casa na Avenida Paulista, ao lado da sua, para transformá-la em um grande jardim para sua esposa.

Uma memória que agora poderá ficar para sempre!!!

Dr. Eloy morreu em 19 de abril de 1964 no Hospital Santa Catarina e seu velório foi na Avenida Paulista em sua própria residência, sendo sepultado no cemitério da Consolação.

Em continuidade ao legado da família, a filha de Eloy Chaves e seu esposo ergueram, em 1957 na cidade de Jundiaí, a FAACG – Fundação Antonio e Antonieta Cintra Gordinho. Segundo o site da entidade:

a criação da entidade foi “inspirada pelo filme Boys Town (1938), que conta a criação de uma comunidade americana destinada a meninos carentes. O objetivo da instituição era prestar assistência à criança desamparada, apoiar creches e clínicas pré e pós-natal, oferecer bolsas de estudos para as crianças e colaborar com outras associações dedicadas à infância”

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Antonieta e Antonio Cintra Gordinho.

A Fundação, segundo o site, “atende aproximadamente 1.400 crianças e jovens, anualmente, em suas seis unidades; sendo cinco em Jundiaí e uma em Araçariguama, dividindo seus atendimentos, além do Centro Cultural Ermida, que tem como objetivo fomentar a cultura, com oficinas educacionais”.

A linda casa da fazenda abriga o Centro Cultural da Fundação e, atualmente, passa por processo de restauração para, muito em breve, tornar-se o Museu Eloy Chaves. Para conhecer um pouco da proposta cultural do museu e do Centro cultural assista ao vídeo abaixo.

No lugar da mansão de Eloy Chaves, localizado na Avenida Paulista 2439, atualmente, está o Edifício Eloy Chaves, um prédio comercial com 15 andares. Foi construído entre os anos de 1971 e 1973 com projeto da filha do Dr. Eloy Chaves, Antonieta Chaves Cintra Gordinho. A FAACG continua proprietária de alguns andares do edifício, que passou por um processo de retrofit (termo utilizado para designar o processo de modernização de edifícios considerados ultrapassados ou fora de padrão) realizado pela RRG Construtora no começo desta década.

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No térreo do prédio está instalado o Instituto Cervantes de São Paulo, que promove o ensino de espanhol e divulga a cultura da Espanha e dos países hispano falantes. O instituto mantém a Biblioteca Francisco Umbral, um acervo que difunde a cultura e os costumes espanhóis, com uma grande variedade de títulos na língua hispânica.

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Por coincidência ou não, em andares do edifício, está sediado o Grupo Energisa, que é um dos maiores grupos em distribuição de energia elétrica do Brasil. Além dele, encontrasse no edifício, a SSE – Energia que é uma empresa especializada em projetos e instalações para geração de energia elétrica a partir de fontes renováveis, principalmente a solar.

Em um certo contraponto, encontramos alocados no prédio a ABIPLAST – Associação Brasileira da Indústria do Plástico, que representa o setor no país e a organização The Nature Conservancy (TNC) que trabalha, em todo o mundo, para proteger a natureza, conservar as terras e águas das quais a vida depende. A entidade ajudou a proteger mais de 48 milhões de hectares de florestas e oito mil quilômetros de rios em todo o mundo.

E, por fim, está sediado no edifício um escritório do IMS –  Instituto Moreira Salles, enquanto a nova unidade do instituto na Avenida Paulista não fica pronta. O IMS tem importantes acervos e patrimônios da história brasileira nas áreas de Fotografia, Música, Literatura e Iconografia. Um trabalho fabuloso.

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Isto é a Avenida Paulista, isto é São Paulo! A diversidade em um só prédio da Paulista, local com rica história. Terminamos o texto desta semana com uma frase do IMS, que também representa o que fazemos na Série Avenida Paulista:

Memória está em quase tudo o que o IMS faz. Ser guardião do passado é missão das mais nobres. De um passado que não fique estagnado, mas que seja também fundamental para entender o presente e enfrentar o futuro. Na melhor inspiração de sua história, o IMS quer construir legados culturais. É a isso que vem se devotando.

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Luciana Cotrim
the authorLuciana Cotrim
Paulistana até a alma, nasceu no Hospital Matarazzo, no coração de São Paulo. Passou parte da vida entre as festas da igreja Nossa Senhora Achiropita, os desfiles da Escola de Samba Vai-Vai e as baladas da 13 de maio no bairro da Bela Vista, para os mais íntimos, o Bixiga. Estudou no Sumaré, trabalhou na Berrini e hoje mora em Moema. Gosta de explorar a história e atualidades de São Paulo e escreveu um livro chamado “Ponte Estaiada – construção de sentidos para São Paulo” resultado de seu mestrado em Comunicação e Semiótica na PUC. É consultora em planejamento de comunicação e professora de pós-graduação no Senac.

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