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Série Avenida Paulista: o mistério do casarão de Amin Andraus

Na semana passada apresentamos o casarão de Abrão Andraus. Lembram? Esta semana será a vez do casarão de seu irmão Amin Andraus. Amin e Calil eram os mais novos dos três filhos da família Andraus. Quem não leu a história do mais velho, Abrão, pode ler neste link.

A mansão de Abrão, em estilo islâmico ficava na Avenida Paulista com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima. Já o palacete de seu irmão Amin, conforme as informações disponíveis, estava localizado entre as Ruas Peixoto Gomide e Pamplona.

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Mansão de Amin Andraus,  em foto de 1915, que se localizava entre as Ruas Peixoto Gomide e Pamplona.

Muito pouco se manteve a respeito de Amim e seu palacete, mas algumas informações foram descobertas.

Um breve retrospecto: como dissemos anteriormente, os três irmãos, Abrão e Amin e Calil, eram sócios e proprietários da Casa Três Irmãos, que foi fundada em 1900, e funcionou durante décadas no centro da cidade. Além da Casa Três Irmãos, os sócios eram proprietários de uma grande fazenda para o fabrico da seda.

No dia 6 de junho de 1929, o jornal Diário Nacional publicou uma matéria sobre a visita do Ministro da Agricultura à fábrica de seda.  Calil e Amin receberam a trupe:  ministro, secretário, assessores, padre, imprensa, entre outros convidados. A turma visitou todas as áreas do processo fabril: laboratórios, pesquisas, empacotamento, fiação e estamparia. Segundo a reportagem: A fábrica era a maior do Brasil e talvez a maior da América Latina.

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No dia 6 de junho de 1929, o jornal Diário Nacional publicou uma matéria sobre a visita do Ministro da Agricultura à fábrica dos irmãos Andraus.

Voltando a Amin Andraus, além de empresário e comerciante, ele parecia também gostar de viagens, festas e comemorações, sendo notícia na alta sociedade carioca e paulista. Várias notinhas sobre suas viagens podem ser encontradas em jornais da época, como a noticiada no Diário Nacional, no dia 3 de dezembro de 1927, que dizia que: “DA EUROPA – Acha-se nesta capital, de volta de sua viagem à Europa, acompanhado de sua exma. família, o Sr. Amin Andraus, sócio da conhecida Casa Três Irmãos”.

Outra notícia, desta vez publicada no jornal A Manhã, no dia 13 de maio de 1944, lia-se a seguinte manchete “CHAMBRE DE COMMERCE FRANCAISE”,  e o texto da reportagem descreve os festejos comemorativos do reconhecimento da Câmara do Comércio Francesa na cidade (…). O grande banquete no Hotel Terminus, foi presidido pelo próprio governador do Estado, Armando Salles de Oliveira (…) convidados para o ágape excellente, com finas iguarias e bebidas superiores”. (rs,rs,rs). E lá estava Amin Andraus, representando a colônia síria no Brasil.

Outro fato interessante é que Amin foi um dos fundadores do Clube Monte Líbano do Rio de Janeiro, inaugurado em 12 de setembro de 1946, que se tornou famoso pelos concorridos bailes de Carnaval. Realmente, o empresário deve ter sido um ilustre da alta sociedade, tanto que, um dos únicos registros de sua casa foi publicada na famosa Revista Life, em 1947, fotografada por Dmitri Kessel.

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Mansão de Amin Andraus fotografada por Dmitri Kessel para a Revista Life em 1947.

Um desafio se impôs neste texto, não havia informação sobre o endereço exato do palacete.  Como contar o que ficou em seu lugar? Muita pesquisa foi realizada na internet, em jornais da época (que inclusive ajudou a construir o trecho acima), no Diário Oficial e nada…. Como dar continuidade a este post?

Uma noite, buscando imagens antigas da Avenida Paulista, um detalhe de uma fotografia ofereceu uma pista. Que maravilha! Vejam a foto abaixo de 1950, nela, aparece do lado esquerdo, uma parte do Parque Tenente Siqueira Campos, mais conhecido como Trianon, na esquina da Avenida Paulista com a Rua Peixoto Gomide.

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À esquerda, o Parque Tenente Siqueira Campos, o Trianon, visto no sentido Consolação da Avenida Paulista.

Quase em frente a essa esquina, vemos que um dos casarões tem uma torre que se destaca. Comparem a torre desta fotografia com a da fotografia da Revista Life: é a mesma. Inclusive o ajardinado à frente da mansão tem o mesmo formato. Na imagem abaixo, o detalhe da torre na imagem aproximada: vejam que o formato, as janelas, os pilares são os mesmos, inclusive dá para ver uma parte da sacada arredondada que fica abaixo da torre.

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Detalhe da foto anterior que mostra os casarões. Vejam a torre que se destaca é mesma da foto da revista Life, portanto, da mansão de Amin Andraus.

Bingo! A casa de Amin Andraus era a segunda antes da Rua Peixoto Gomide. Foi só ir ao Google Street View e descobrir o endereço. Avenida Paulista, 1650.

Prosseguimos nossa empreitada: em um anúncio do Correio da Manhã, verificamos que depois, nos anos 1950, o endereço foi ocupado por uma empresa de construção civil chamada Hedeager Bosworth do Brasil S.A. – Engenharia, Arquitetura e Construções que, anos depois, teve o nome alterado para Hoffmann Bosworth Engenharia S/A, empresa que trabalhava com loteamento de terras e construção civil de fábricas e sedes de grandes empresas, tendo como presidente o Sr. Charles Sampson Bosworth.

E nesta trajetória, a la “Sherlock Homes”, percebemos que pode existir uma conexão entre a família de Amin Andraus e a empresa de construção que supomos ter sucedido a família no local, no endereço da Avenida Paulista. Os filhos de Amin, Roberto e Raul, enveredaram para a área de construção civil, abrindo a OCIAN – Organização Construtora Incorporadora Andraus. A empresa foi responsável por inúmeras construções na Baixada Santista, como mostra a reportagem do lançamento do edifício Santa Clara, em Santos, nome dado em homenagem à esposa de Amin e mãe dos irmãos Andraus.

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Lançamento do Edifício Santa Clara, na Avenida Conselheiro Nébias, em Santos, em 1951. Na foto, discursa o Sr. Roberto Amin.

A empresa também ficou conhecida por planejar e construir uma “cidade”: a Cidade Ocian, que fica na Praia Grande e, em São Paulo,  levantar o Edifício Andraus, aquele mesmo que foi incendiado em 1972. Uma curiosidade sobre o edifício: iria se chamar “Edifício 50”, por ser o quinquagésimo a ser erguido pela construtora Ocian, porém a construtora acabou optando por homenagear seu fundador.

Em tempo, não podemos afirmar se a propriedade de Amin Andraus na Avenida Paulista foi mantida ou demolida. Em meados dos anos 1970, a Hoffmann Bosworth Engenharia pediu concordata e, logo após, abriu falência.

Falta apenas um fiozinho para juntar os Andraus com a Hoffmann Bosworth Engenharia. Alguém ajuda? Alguém da família Andraus ou alguém que tenha trabalhado na Hoffmann Bosworth confirmaria ou atualizaria essa história?

Quem puder divulgar o texto, para ver se achamos alguém que possa ajudar. Quem sabe, desatamos esse nó que falta na história.

Vamos em frente! Não sabemos como a propriedade veio ao chão, mas hoje neste endereço está instalado um estacionamento da Rede Park. Descobrimos ainda que em abril de 2006, na época da Lei Cidade Limpa, o local tinha um totem publicitário da empresa M&D, que foi notificada por publicidade irregular.

É isso que pudemos averiguar…  Quem se habilita a contribuir com mais alguma informação?

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Estacionamento Redepark, na Avenida Paulista, 1650. Imagem: Google Street View.

Rede Park – Estacionamento – Av. Paulista, 1650 – Bela Vista (11) 2888-6444   Aberto:  07:00 – 23:00 hs

 

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Luciana Cotrim
the authorLuciana Cotrim
Paulistana até a alma, nasceu no Hospital Matarazzo, no coração de São Paulo. Passou parte da vida entre as festas da igreja Nossa Senhora Achiropita, os desfiles da Escola de Samba Vai-Vai e as baladas da 13 de maio no bairro da Bela Vista, para os mais íntimos, o Bixiga. Estudou no Sumaré, trabalhou na Berrini e hoje mora em Moema. Gosta de explorar a história e atualidades de São Paulo e escreveu um livro chamado “Ponte Estaiada – construção de sentidos para São Paulo” resultado de seu mestrado em Comunicação e Semiótica na PUC. É consultora em planejamento de comunicação e professora de pós-graduação no Senac.

15 Comentários

  • o colega Luciano Cartegni envio um trecho de um filme rodado na Avenida Paulista em 1976, em que aparece o palacete de Amin. Ou seja, a mansão só foi demolida depois, portanto foi mantida pela empresa de engenharia. Muito legal. Vejam o filme, É na parada do ônibus (46 segundos). https://www.youtube.com/watch?v=5nsPG8lC21Q

  • Adoro ver essas fotos, mas não consigo não me revoltar com isso, pq tudo foi e é destruído no Brasil? Vivo num bairro em Londres onde a maioria das casas são do séc. XVIII. No bairro do Soho próximo à Piccadilly Circus pra quem não conhece a cidade, hà uma igreja construída em 1675 e lá está. A Inglaterra não precisou derrubar a sua história, herança arquitetônica pra ser uma grande e rica nação há pelo menos 700 anos.

    • Marcelo, concordo totalmente com você. Os países na Europa tem consciência da importância de sua história social, que tem séculos de existência, passaram por muitas atrocidades como gerras, pestes, doenças e muita dificuldades, por isso mesmo conhecem a importância de preservar o seu patrimônio. O Brasil é um país jovem, que foi povoado por europeus que queria enriquecer e voltar para suas casas. Começou sua história como um país de ninguém, e ainda está engatinhando na preservação de sua memória…

    • É, xará, muito já se perdeu pelos vários cantos do Brasil: não é só São Paulo quem sofre. Lembro-me de que por muitos anos havia visto 2 casas numa quadra da Avenida Vieira Souto no Rio; na última vez que passei lá, uma delas, que tinha uma varanda em madeira no pavimento superior, já tinha sido demolida. O que me deixa mais indignado é que se trata de exemplares únicos ou raros, restando-me apenas pegar uma folha de papel e desenhar criações de minha própria cabeça nos estilos prediletos (tenho, entre outros, os seguintes: neoclássico, art-nouveau, árabe, florentino, gótico, barroco e rococó).

  • Marcelo, concordo totalmente com você. Os países na Europa tem consciência da importância de sua história social, que tem séculos de existência, passaram por muitas atrocidades como gerras, pestes, doenças e muita dificuldades, por isso mesmo conhecem a importância de preservar o seu patrimônio. O Brasil é um país jovem, que foi povoado por europeus que queria enriquecer e voltar para suas casas. Começou sua história como um país de ninguém, e ainda está engatinhando na preservação de sua memória…

  • Muito boa a matéria, parabéns! se precisarem de mais informações sobre os Andraus tenho certeza que minha avó adoraria ajudar na pesquisa.

  • Na foto da página que serve de chamada a esta, vê-se o mirante já desprovido de suas colunas e cobertura. Eu me lembro de ter visto é casa pela última vez (em 1981) com a fachada possivelmente em tons de verde-acinzentado como se fosse toda tomada por conta de fungos e musgos. Em 1982, quando fui com meus colegas de 1.º ano do 2.º grau ao MASP, vi o mínimo resto do local, apenas um dos arcos com colunas da varanda semicircular. E, se não me falha a memória, houve um tempo que a casa, acho que pelo início dos anos 70, tinha uma coloração azul-cobalto.

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