Série Avenida Paulista: histórias da família Borges de Figueiredo

Série Avenida Paulista: histórias da família Borges de Figueiredo

Nesta semana, apresentamos o último texto da série escrita por Flora Figueiredo para a Série Avenida Paulista. Nos dois textos anteriores, a poetisa contou histórias da sua família do lado materno, que descende de Jayme Loureiro. Hoje, ela aborda o lado paterno, que se iniciou com a vinda de seu avô, José Borges de Figueiredo, para o Brasil.

Vamos desfrutar da tocante narrativa de Flora.

Celso Figueiredo, meu pai.

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Papai, 1960

Ir à escola com ele todas as manhãs era uma aventura.

O carro era um Packard, que já tivera seus tempos áureos.

Na hora de sair, eram convocadas todas as pessoas da casa e até o jardineiro do vizinho para empurrar a máquina, que pegava no tranco.

Eu adorava essa farra matinal!

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O Packard e eu

Seguíamos conversando animadamente pelo trajeto, como se nada de inusual tivesse acontecido. Aliás, não era inusual…

Houve um momento em que, de tão velha, a capota desabou e passamos, mamãe, meu irmão e eu, a dividir espaço com um cabo de vassoura que servia como estaca.

Meu pai nasceu em 1903, filho temporão de pais portugueses: Maria Augusta Figueiredo (que dá nome à Rua Maria Figueiredo), conhecida por seu caráter humanitário, benfeitora da Maternidade São Paulo, da Beneficência Portuguesa, de inúmeras instituições de caridade e José Borges de Figueiredo, um dos fundadores da Avenida Paulista, em 1891, em parceria com Joaquim Eugenio de Lima, de quem já era sócio em outros empreendimentos.

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Meu avô, José Borges de Figueiredo.

Foi também um dos fundadores do Banco de São Paulo e diretor da Santa Casa.

Pela influência no desenvolvimento da cidade, vovô foi homenageado com a Rua Borges de Figueiredo, na Mooca.

Ele e vovó, Maria Augusta, tiveram 5 filhos: José Borges de Figueiredo Junior, Aurora, Esther, Mario e Celso Figueiredo. Toda a família morou na Avenida Paulista, na casa construída por meu avô em 1897, com projeto dos arquitetos Augusto Fried e Carlos Ekman.

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Residência de José Borges de Figueiredo, no término da construção na Avenida Paulista, antigo número 87, atual 1106.

Personagem relevante desta série, José Borges de Figueiredo foi motivo de pesquisa detalhada, por Luciana Cotrim, conforme o link que pode ser acessado aqui.

Órfão de pai aos nove anos, papai foi criado pelos irmãos mais velhos. Ficou decidido que ele faria o curso superior na Europa.

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Meu pai, ainda menino, e uma de suas irmãs.

Graduou-se em Medicina na Universidade de Paris, fez mestrado no Uruguai, onde foi aluno do professor Barsa, conhecido na época como uma autoridade em Radiologia, a especialidade escolhida.

O doutorado na Alemanha fez dele um poliglota. Teve a sorte de encontrar em mamãe uma parceira que também falava várias línguas, por exigência da educação empenhada do pai, Jayme Loureiro (que descrevi nos capítulos anteriores dessa série, o primeiro neste link e o segundo neste link)

Profissional perfeccionista, papai executava sozinho todo o trabalho do consultório: radiografava, revelava e redigia os laudos. Jamais aceitou ajuda técnica para a revelação das chapas.

Não cobrava de boa parte dos clientes, o que se fazia sentir no orçamento da casa no fim do mês.

Entre as histórias que contava, havia a experiência na Revolução Constitucionalista de 1932, quando foi convocado como médico do batalhão.

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Papai, na revolução de 1932

Há muitos anos, conheci um pediatra em São Paulo, Dr. Joaquim de Toledo Netto, que contou ter guardado durante muito tempo as radiografias feitas por meu pai, por considerá-las obras primas da Radiologia. Em uma delas, de um menino que engolira uma moeda, via-se nitidamente o brasão e as inscrições.

Certa vez, quando descíamos no elevador do prédio da Rua Sete de Abril, onde era o consultório, um pacote carregado em baixo do braço se rompeu e rolaram crânio, tíbia, clavícula, fêmur, para pânico e gritaria das sóbrias senhoras presentes.

Essa imprevisibilidade de meu pai era um eterno suspense e motivo de grandes risadas.

Como ossos e órgãos eram levados para estudo em casa, Celsinho e eu crescemos com intimidade com esqueletos. Tempos depois, isso me ajudaria muito quando assessorei, como tradutora, cirurgiões estrangeiros que vinham dar aulas no Brasil.

Nada afeito à vida social, sua maior satisfação era o convívio com a família.

Sólido e positivo, quando algum de nós se abatia, papai dizia em alemão: “kopf hoch!”, “cabeça erguida”! No dia de meu casamento, quando as portas da igreja se abriram, eu me intimidei. Foi quando ouvi um sussurro: kopf hoch! Confiante, caminhei firme em direção ao altar.

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Meu casamento em 1967

Papai visitava com frequência os irmãos mais velhos, de quem, por ser muito pequena, guardo lembranças muito vagas. José Filho, Esther e Mário, com quem tive mais contato. Sorridente, culto, perfumado, era dono da fábrica de perfumes “Valéry”.

Dois irmãos faleceram ainda jovens, Aurora e Plínio. A rua lateral do MASP chama-se Plínio Figueiredo, em memória desse meu tio que faleceu ainda menino.

Os sobrinhos também tinham em papai apoio e referência.

O contraponto de suas excentricidades era a severidade em nossa formação. Retidão e respeito ao próximo foram as máximas que pautaram nossas vidas. Apesar da alegre ternura, ele era capaz de explosões de fúria retumbantes. Ainda assim, entre broncas e explosões, fomos criados sem nenhuma palmada.

A minha grande defasagem de tempo em relação à família Figueiredo foi porque meus pais demoraram 11 anos para ter filhos, quando nasceu Celsinho. Eu cheguei cinco anos depois. Essa distância de 16 anos fez com que eles fossem bem mais idosos do que os pais de minhas amigas e coleguinhas da escola.

Felizmente, eles tinham a mente à frente de seu tempo e procuravam acompanhar os filhos e a grande diferença de gerações.

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Nossa casa

Sua modernidade ficou evidente quando, antes de nascermos, resolveram construir uma casa e optaram por uma arquitetura nada convencional na época. Escolheram o arquiteto suíço, John Graz, que começara a modificar a paisagem da cidade, até então com influência francesa.

Cresci nessa casa, meu primeiro ninho, meu primeiro encontro com as borboletas.

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À procura de borboletas.

Quis o destino que em 1965, num exame feito por ele mesmo, papai descobrisse uma grave deformação nos rins de mamãe, que lhe anunciava vida breve. A partir daí, sua dedicação foi absoluta, o que amenizou grandemente o sofrimento dela.

Quando mamãe se foi, em 1971, uma parte dele partiu junto. Jamais foi o mesmo.

Meu pai não recebeu formação religiosa, mas no dia da Missa de Sétimo Dia de mamãe, na hora da comunhão, acanhado, ele me disse:

_ Filha, eu gostaria de comungar, mas não sei fazer isso.

Peguei-o pela mão e fomos juntos para a mesa de comunhão.

_ Mas eu nunca me confessei!

Convicta, eu respondi:

_ Faça. Depois, procuraremos um padre.

Ele fez então, aos 68 anos, sua Primeira Comunhão.

Nessa fase da vida, os netos passaram a ser seu foco e ele se empenhou para compensar a falta que mamãe me fez.

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Papai e os netos, 1971

Da convivência com ele, aprendi o hábito da leitura, atividade prazerosa após o jantar.

Também aprendi com ele que valia a pena interromper um momento do dia para admirar o pôr do sol.  Era o que ele fazia em plena ponte da Cidade Jardim, estacionado na hora do maior movimento, em meio a ameaças e xingamentos.

– Sabe, Florinha, se um pintor pusesse essas cores na tela, diriam que era exagero. No entanto, olhe do que Deus é capaz.

Obrigada, pai, por essa aula espontânea de poesia.

O melhor, no entanto, foi o fato de que em nossa casa se conversava. Era um tempo em que a comunicação era feita com a fala e não com os dedos. Dialogávamos muito à mesa, entre relatos, palpites, discussões.

Foi dessas conversas que, mesmo tendo embarcado atrasada no trem da história, consegui resgatar alguns dados sobre meu avô, sua atuação, sua importância na formação da cidade.

Um fato que merece ser contado diz respeito ao MASP (Museu de Arte de São Paulo), localizado na Avenida Paulista.

O terreno pertencia a meu avô. Na gestão do Prefeito Barão de Duprat, houve interesse na compra da área.

Foi feita, então, uma venda por preço muito abaixo do que valia na época.

No contrato, vovô acrescentou uma cláusula. Nela, ele exigia que sempre se mantivesse a área livre. Seu objetivo era que ela fosse um logradouro público. Caso esse acordo não fosse cumprido, o terreno voltaria para a família.

Esse é o motivo do vão livre que Lina Bo Bardi projetou quando foi incumbida da execução da obra. É por isso também que a área deve permanecer desimpedida de tudo que possa dificultar a livre circulação dos passantes.

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Carta contrato, datada em 12 de abril de 1911, em que o terreno é vendido por 76 contos de reis, com a condição de ser um “logradouro público perpétuo”.

Agora, os casarões se foram, os tempos mudaram, a família toda partiu e me deixou a missão de fechar a cortina. Curvo-me em reverência a esse avô, José Borges de Figueiredo, que nos permitiu participar da história da cidade de São Paulo; à minha avó, tios e primos que marcaram sua passagem com dignidade.

Quanto a você, meu pai, tente uma licença com os anjos vigilantes, e junto com mamãe, veja os capítulos que continuam com os netos e bisnetos. Mantivemos a força e a lisura aprendidas com você.

Como herança de sua excentricidade, tenho a poesia, que me põe em ebulição quando menos se espera. Como legado, preparei meus meninos para reconhecer no próximo o verdadeiro valor do mundo. Lição aprendida, a simplicidade deles emociona, a integridade deles empolga. Assinamos nossa existência com as tintas de Deus. Aquele mesmo que pintava o seu pôr do sol.

Kopf Hoch, meu velho! O tempo e a distância não foram capazes de apagar a riqueza das lembranças. Permanecemos juntos.

Até seu velho guarda-chuva continua atrás da porta.

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Engrandecidos com suas memórias, agradecemos, de coração, à Flora Figueiredo por sua generosidade em compartilhar com todos os leitores da Série Avenida Paulista e do Projeto São Paulo City, suas histórias, recordações e fotografias de suas famílias, ambas moradoras da Avenida Paulista.

Para quem se deliciou com o relato de Flora nestas três últimas semanas, pode continuar acompanhando suas poesias e seu trabalho neste link.

No próximo domingo, novidades na Série Avenida Paulista. Acompanhem!

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Paulistana até a alma, nasceu no Hospital Matarazzo, no coração de São Paulo. Passou parte da vida entre as festas da igreja Nossa Senhora Achiropita, os desfiles da Escola de Samba Vai-Vai e as baladas da 13 de maio no bairro da Bela Vista, para os mais íntimos, o Bixiga. Estudou no Sumaré, trabalhou na Berrini e hoje mora em Moema. Gosta de explorar a história e atualidades de São Paulo e escreveu um livro chamado “Ponte Estaiada – construção de sentidos para São Paulo” resultado de seu mestrado em Comunicação e Semiótica na PUC. É consultora em planejamento de comunicação e professora de pós-graduação no Senac.

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